Sertão – Natal em 1948

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Todos nós temos os nossos Natais gravados em algum canto da memória. Pelo menos os Natais que deixaram impressões mais fortes. Creio que deve ser assim na cabeça das pessoas que tiveram, em suas famílias, aquela festa com um pinheirinho enfeitado com bolas de ouro, anjinhos e velas penduradas nos galhos frágeis; um presépio coberto de barba-de-bode, um Menino Jesus no berço de palha, além do Papai Noel, com pacotes de presentes, e celebrações religiosas, onde a canção Noite Feliz era entoada pelos corais, e repetida em casa. Os Natais do passado eram mais família, sem dúvida. É difícil alguém que não tenha um Natal, ou mais de um, que marcou sua vida e que, de quando em quando, vem à lembrança, quer com saudade, quer com tristeza, quer como marco de felicidade. Ou, quem sabe, marco de horror!
Era a noite de 24 de dezembro de 1948. Naquele tempo, Papai Noel só chegava um dia antes do nascimento do Menino Jesus. E sempre à noite. Hoje, a gente vê o “bom velhinho” até uma semana antes, de dia, principalmente nas portas das lojas. Ele substitui aqueles palhaços que, diante das grandes lojas, convidam os passantes para entrar e, se possível, deixar ali um bocado de seu dinheiro. E, para diferenciar o Papai Noel do palhaço, deram-lhe uma risada ridícula com aquele oh, oh, oh, oh.
Eu dizia que era a noite de 24 de dezembro de 1948, sim. O Papai Noel já visitara as casas, já deixara os presentes para as crianças, e sumira no oco do mundo. E todas as crianças que não dormiam, ainda não esgotadas de emoção, sustos e promessas de melhorar as notas na escola, de obedecer à mãe, não bater nos irmãozinhos, todas essas crianças tinham o direito de assistir à “missa do galo”, aquela celebração católica realizada à meia-noite, onde tem de tudo, menos o galináceo que lhe dá o nome.
Pois é. Em 1948, eu já conseguia ir a esta missa encantada, embora dormisse durante o sermão do padre. No entanto, naquela noite não houve sermão e nem tempo para dormir sentado num dos degraus do altar, já que eu fazia ali as vezes de coroinha. Não posso precisar em que parte da missa foi que, de repente, interrompendo um “dóminus vobíscum”, entrou igreja adentro uma mulher, desgrenhada e chamuscada, aos berros, clamando por socorro ou outra coisa assustadora. No silêncio de cemitério que se fez, é sua voz que está na minha memória daquele Natal e a frase terrível que repetiu uma só vez:
– Angelina, de Deus, tua casa está queimando e as crianças estão dentro.
Nem o padre teve tempo para um “amém”. A Angelina e seu marido Luiz, lá no meio dos bancos, ergueram-se em gritos de desespero, no que foram acompanhados de mais uma dúzia de pessoas, todas saindo correndo para fora, o que serviu para instalar o pânico geral no templo. Digo isso de cadeira, pois eu mesmo sou testemunha do terror que tomou conta de mim gritando pela mãe, que me acudisse, embora não soubesse do quê.
Não sei se o padre ficou sozinho na igreja. Quando voltei a mim, estava diante da casa da dona Angelina, vestido com aquela saia vermelha com uma capinha da mesma cor nos ombros sobre uma camisolinha branca, vestimenta de sacristão em missa solene. Ali havia uma confusão terrível, homens tentando entrar na casa em chamas, alguns pela porta da frente, outros por uma janela. Gente chegando com baldes d’água que era atirada inutilmente contra as chamas, mulheres segurando a dona Angelina que queria se atirar no meio do fogo em busca dos filhos, muitos gritos procurando o pai das crianças, seu Luiz, que entrara na casa e não voltara.
– Angelina, de Deus, tua casa está queimando e as crianças estão dentro!
Era o que rebatia na minha cabeça sem entender a dimensão da tragédia que se consumava em minha frente. Na confusão, lembro que minha mãe arrastou-me para casa, sem que eu protestasse, tal o pasmo que se instalara no menino de oito anos.
Mais tarde, soube-se que o casal deixara os dois filhos pequenos dormindo sozinhos, enquanto iam à missa ali pertinho, esquecendo acesas as pequenas velas dependuradas no pinheiro. Ainda não havia as luzinhas coloridas pisca-pisca. E que foi uma vizinha de porta que alertou as proximidades sobre o fogo, e que tentara entrar na casa sem sucesso.
Por muitos e muito anos, a imagem da mulher entrando na igreja aos brados, o fogo tomando conta de toda a casa de madeira, os restos calcinados de camas, fogão retorcido, panelas, vidros e telhas aos cacos, tudo voltava muito claro na minha cabeça, sempre no Natal seguinte de minha infância e, talvez, de todas as crianças que, naquela noite, não foram dormir depois da visita do Papai Noel. Não sei quando aquela vila teve outro Natal com uma missa do galo sossegada.