Torresmo nas tardes de Santo Ângelo

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Não há tarde sem romantismo na hora do sol se pôr. Ele deita sob o cobertor das nuvens afogueadas em vermelho-claro. Nos dias de céu escandalosamente azul, ele se cobre apenas com um lençol transparente entre o amarelo-ouro e o encarnado-rosa. Nesses momentos de doce sensação de paz, os corações dos poetas santo-angelenses enfartam-se de inspiração e lavam de tinta as páginas de seus cadernos secretos. Os namorados beijam-se com mais ternura. Há um abraço mais forte de puro carinho da esposa quando o marido volta do trabalho. A pomba faz amor pela vigésima vez antes de se recolher no galho de dormir. As flores? Não falo delas, pois estão cansadas de tanto sol e querem água.

Como se não bastasse esse ambiente natural de pura emoção, como se não fosse suficiente a beleza das tardes missioneiras para os corações enternecidos, o santo-angelense tem ainda o benefício de um perfume que invade as ruas, as praças, os pátios, as casas e os narizes. Não é um perfume que se adapte exatamente para a inspiração dos poetas e dos sonhos das donzelas. Nem é adequado para o hálito do beijo ardente dos amantes. Muito menos para o artista que esboça o traço do poente na tela branca. Nem é perfume, na verdade, mas é cheiro, cheiro de torresmo fervendo em tachos descomunais, tal a imensidão do espaço tomado por esse odor característico.

Se venta do norte, o sul é tomado de torresmo até os confins do município do outro lado do rio Ijuí; se venta do leste, a cidade toda aspira torresmo à vontade; se venta do oeste, o Bairro Pippi e adjacências se regala de toucinho frito. Dá a impressão que fervem milhões de porcos numa só vez, para a delícia de alguns e o asco de outros.

Sim, porque o cheiro que exala da graxa suína de panelões invisíveis tem dois lados, ou dois narizes: um que aguarda as tardes de Santo Ângelo para usufruir do olor de torresmo; o outro, que se vê aos tombos para segurar uma ânsia que brota na boca-do-estômago e quer sair pela boca de fato, mas quase sempre acaba em soltura, como diz o poeta Rubilar Ferreira para diarreia. Para o primeiro nariz, o torresmo exala uma fragrância e serve de complemento imaginário para uma cervejinha verdadeira tomada no bolicho da esquina; para o segundo, não é cheiro, é fedor mesmo, nauseabundo, e detona a vontade de comer qualquer coisa, porque, se come, volta. Que coisa! Como pode haver narizes tão diferentes para um mesmo aroma?

Agora, para completar esse jeito de ser das tardes de Santo Ângelo só falta reabrir o curtume. Se a fábrica de banha nos trouxe um pouco das características odoríficas de um Santo Ângelo do passado recente, lembremo-nos que não estariam completas as tardes sem as essências aromáticas advindas do curtume, e que o coitado do Itaquarinchim era obrigado a espalhar pela cidade. Deus que atalhe!

(Publiquei isso aí acima, no Jornal das Missões, em novembro de 2001. Esse trecho que segue, acrescentei-o em abril de 2005. Então falávamos em Fábrica de Banha, inicialmente. Depois, Frigorífico. Mas o cheiro continuou o mesmo, além da gritaria dos porcos que incomodavam a vizinhança. Será que ainda fede? A essa pergunta, respondo agora, em setembro de 2013, certo de que a história ainda não acabou.)

Pois não é que fede! Ainda fede e, pior, não tem mais aquele aroma de torresmo, mas um cheiro de fossa aberta. Eu desempenho minhas funções ali nas barbas do frigorífico e sei muito bem que o cheiro que agora toma conta dos ares em torno não é mais o mesmo do passado. Sim, de um passado recente, mas que exalava um odor mais parecido com o que vem de uma panela fritando toucinho fresco, do que o que vem do rompimento de um esgoto cloacal. Deus que atalhe mesmo!

Ora, lá se vão mais de doze anos que vivo escrevendo a respeito dos odores característicos das tardes santo-angelenses ali pela antiga estação de trem e adjacências, até os confins da Praça Leônidas Ribas. Mas, pelamordedeus, que voltem os odores de décadas atrás. Ainda é preferível respirar ares com fragrâncias de torresmo do que a fétida redolência de um canal aberto dos dejetos da cidade inteira. Venha, caro leitor, passear ali pelas bandas do Teatro Municipal Antônio Sepp numa tarde em que sopre brisa vinda das bandas do Bairro Pippi. Entenderá no que se transformou a até saborosa lembrança de torresmo recém saído do tacho, e que havia nos ares de antanho. Agora, danou-se!