Trair e coçar é só começar

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Essa história de traição entre namorados, noivos, casados, amontoados, amancebados et caterva já não é mais tema explosivo quanto foi num passado ainda recente. Os tempos mudaram e o comportamento das relações humanas também. Hoje casa-se, descasa-se, junta-se, desjunta-se, amanceba-se e desamanceba-se com a maior tranquilidade. Ontem, pela televisão, ouvi uma especialista em relacionamento de casais aconselhando que “se não se acertam logo no início do casamento, devem se separar imediatamente”. Ora, ontem ainda ouviam-se vozes que diziam para buscar o entendimento, cada um cedendo um pouco até as coisas se acertarem, porque ninguém é perfeito, ninguém é igualzinho ao outro, cada um tem suas diferenças e coisa e tal. Hoje, isso, é babaquice?

Mas, também não sejamos radicais. Há os que defendem a ideia de que o relacionamento tem que passar por altos e baixos, com os dois superando as dificuldades até o encontro da felicidade completa e eterna, ou melhor, até que a morte os separe. Para isso, aparecem os pregadores de verdades “científicas”, como aquela, por exemplo, que a traição é uma necessidade no relacionamento. Pode?

Pode, segundo o que diz um estudioso do relacionamento humano, Alain Botton, um suíço que escreve sobre o assunto. Ele diz que “o amor e o desejo podem ser conciliáveis no início da relação, mas despedem-se ao longo do convívio do casal”. Isso quer dizer que, quando se inicia um relacionamento, o amor que o homem tem pela mulher e vice-versa, é o mesmo desejo que um sente pelo outro. Mas, com o passar dos dias, o amor continua o mesmo, mas o desejo se despede, isto é, o objeto do desejo do homem, que era a mulher com quem se casou, não é mais ela, assim como o objeto do desejo da mulher, que era o homem com que se casou, não é mais ele. Amam-se, mas não se desejam mais. Uns dizem isso com outras palavras, como “o fogo da paixão se apagou”.

Ora, ora, imagino por quê! Ele redescobre os amigos “pelaí”, e começa a chegar em casa cada vez mais tarde. Perde a postura atlética e gigante e a substitui por uma barriga e peso desmedidos que, além de obrigá-lo a mudar o figurino das calças e camisas, esconde cada vez mais o “tcham”. Muito antes disso ela já notara que as coisas estavam mudando quando ele arrotou à mesa e sequer notou.

Da parte dela, perdeu aquele tom meloso que botava na voz e o jeito de cumplicidade de alcova no olhar quando se referiam mutuamente a segredos de cama. Sua cintura, antes com curvas venenosas, sumiu numa reta que inicia nas coxas e termina nas axilas, com lombadas aqui e acolá. Muito antes desse descalabro, ele já percebera diferenças no relacionamento quando a mulher recusara-se a tomar banho juntos, alegando o tamanho do cubículo. Também, pudera!

Coisas assim podem ser a causa da despedida do desejo de que fala o escritor suíço. Apesar do casal se manter unido, ambos respeitando banhas e arrotos, amando-se, inclusive, não mais se desejam como antes. O desejo mútuo foi embora!

Foi embora mas não se apagou em nenhum dos dois, apenas lhes falta a faísca de antes que os queimava em loucuras eternamente celebradas. Ai, como éramos felizes na cama, uma vez! O desejo continua vivo, cuja chama abrasadora está pronta a incendiar-se agora na visão de outros corpos, talvez mais curvilíneos, é claro, como uma necessidade física. Como alimentar-se! Como dormir! Como o lazer! Como rezar em apertos muito graves! E isso justifica a traição num silogismo muito simples: se o desejo é uma necessidade, se a companheira ou o companheiro não mais desperta o desejo, se outro homem ou outra mulher desperta e satisfaz a necessidade, a traição, sendo uma satisfação do desejo (isto é, de uma necessidade física), é normal e saudável. E atenção, para ambos, homem e mulher!

Talvez a geração que está aí casada não aceite e nem acredite que seja assim. Ao contrário, talvez condene a traição de todas as formas. Faz parte do pensamento tradicional, da moral e dos bons costumes, ainda. Mas eu fico pensando, cá com os meu zíperes, o que será das gerações futuras, essas que curtem ritmos como hip hop e outros que se podem escutar por aí à vontade, e que trazem letras como essas aí, que, digo, são as ainda publicáveis em jornal:

Eu vou pegar você e tam tam tam tam

Eu vou morder você todinha

Eu vou pegar você e tam tam tam tam

Vou dar tapinha na bundinha

Vou pedir pra tu tirar

Tirar da boquinha e botar na coxinha

Tirar da coxinha e botar na bundinha

Tirar da bundinha e botar na boquinha

E pedir pra tu ralar.

Questionada sobre esse tipo de letra, uma mocinha de seus doze anos, que rebolava ao som de Eu vou pegar você e tam, me deletou assim: “Credo, véio, o que é que tem demais?

É, não tem nada demais!