Tua cara no documento

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Num dia desses, ouvi uma senhora falando para um grupo de amigas que detestava ter que mostrar documentos seus que estampavam fotos. Apontou a Carteira de Identidade e a Carteira de Motorista como documentos que odiava. Odiava, não pelo fato de ser um documento mas pela foto que estava no documento.

– Não sei por que não deixam a gente levar uma foto de casa para colocarem ali. Eles mandam a gente olhar para uma maquininha que está ligada ao computador e, clic, pronto. A cara que sai lá não é a da gente, não é verdade? Nunca fui tão feia, nem tão velha, nem tão séria, nem tão braba: uma coisa!

Algumas vozes do grupo que a ouvia concordaram com ela. E, a bem do que seria um sentimento comum, as fotos desses documentos, convenhamos, são mesmo uma coisa, como disse aquela senhora. Coisa feia! Culpa dos equipamentos? Culpa da pessoa que não estava preparada para uma clicada espontânea ali, à beira do balcão de atendimento?
Ora, ora, senhoras e senhores que detestam a própria foto reproduzida no mais importante documento pessoal. Será que as instituições encarregadas de emitir tais documentos precisam de um estúdio ao modo “Edegar Cavalheiro” para atender às exigências personalizadas das estampas femininas, principalmente, e masculinas, em seguida? Sim, porque os homens, talvez mais que as mulheres, trazem nesses documentos fotos de arrepiar. A minha, mesmo, tanto na da Identidade como na de Motorista, só me dou conta que sou eu com algum esforço de reconhecimento e pesquisa genealógica. Sempre que devo apresentar um desses documentos, fico olhando para a cara do funcionário que a examina para ver se me olha e, depois, deixa aparecer na testa aquelas rugas que traduzem uma dúvida secular: ser ou não ser, isto é, é ou não é! Depois de segundos, reconhece-me, ou não, não sei. Acho que ele também deve ter uma foto em algum documento seu onde reside o mesmo resvaladio e doloroso problema.

Mas se assim é, todo mundo com documentos apresentando fotos que passaram muito longe dos estúdios profissionais, e mais distantes ainda do Photoshop, é um fato que não deve melindrar. Afinal, ninguém é tão feio que não se aguente e nem tão bonito quanto pensa. Lembro que, quando fiz o último documento, a mocinha que manipulava a câmera, que parecia um olho de tão pequena, mostrou-me a foto que saiu no monitor e perguntou se servia aquela. Depois de tentar identificar, à distância, aquela coisinha que não tem jeito de se ver direito sem um vira e mexe no monitor, deixei por isso mesmo. Não devia!

O que não entendo muito bem, e acho que é bem diferente do que acontece com as fotos nos documentos obrigatórios atuais, são as fotos que as pessoas usam para exposição pública. Essas, em especial as que se encontram nos sites de relacionamento como o Facebook e, agora, as que estão por aí com a cara dos candidatos a cargos municipais, essas fotos são de lascar. Ou desfigurados por culpa da photoshopada, ou por culpa de querer ser diferente do que é. Será que não gostam de si mesmo?

Tudo bem que, se você não conhece pessoalmente a figura, até pode ficar impressionado tanto pela beleza e, principalmente, pela juventude que a foto traduz, como pela postura, que sempre indica uma parte da personalidade. É aquela questão universal da “primeira impressão é a que fica”.

Mas se você conhece as pessoas, pode até deixar cair os “butiá do bolso”, tal a surpresa que essas figuras photoshopadas apresentam. No Facebook, por exemplo, é até de rir, tal a inversão dos valores estéticos dos rostos e dos corpos. Mas, como dizem os homens da paz, faz parte! Também acho que “faz parte”. Mas faz parte do engodo de que sobrevivem os sites de relacionamento, da obscuridade e da necessidade de preencher vazios e ocupar espaços que ficaram perdidos, ou não existem, em suas vidas. Serve como exemplo a foto de uma mulher de 65 anos, travestida pelo Photoshop em mocinha esbelta, linda, loira e feliz da vida na frente da Torre de Eiffel, lugar onde nunca esteve. Eu sei porque a conheço!
O que não dá para engolir, também, são as fotos de alguns candidatos e candidatas, nesse momento de eleições. Eu resumiria em dois modelos básicos: um, irreconhecíveis pela photoshopada que deram na cara; outro, pela expressão que pretenderam dar ao seu rosto, ao seu olhar, ao seu sorriso. Pelo amor das madrugadas, o que é isso. Olhem com cuidado para aqueles folhetos que agrupam todos os candidatos de uma coligação, por exemplo, e vá dando um sentido para aquelas caras. Não vamos exagerar e generalizar: há os que mantiveram a postura do seu dia a dia e, por isto, são reconhecidos facilmente. Mas há outros que, de tão lindos que ficaram, de tão rejuvenescidos que só são reconhecidos pelo nome que está abaixo da foto. Outros arrumaram um sorriso, um trejeito, uma ruguinha na testa, um olhar pro lado que não lhes é comum, nem aqui, nem na Conchinchina. Com perdão da palavra, ouvi a interpretação da foto de um candidato a vereador, estampada por aí, que dizia que aquela cara era a de quem estava sentado no vaso sanitário, em ação. Concordei para fechar o assunto, afinal, nunca o vi em tal ação. Aliás, em ação nenhuma, na Câmara.