Um analista para Lúpi

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Antes que tarde seja, preciso fazer esta homenagem póstuma. Perdoe-me o velho Machado de Assis, mas seu Brás Cubas não deixou tantas lembranças como a de um meu pequeno cão, nascido em Passo Fundo e vivido em Santo Ângelo por mão e obra da minha velha mãe que o trouxe numa caixinha, no ônibus, disfarçado de bolacha. Sim! É que existe uma proibição de transportar animais em coletivos. Então, a velha senhora misturou-o com bolachas caseiras que o cobriam por inteiro. Afinal, era um presente de vó para um seu neto querido. Já em casa, foi aquele tcham-tcham-tcham… e apareceu um coisinha preta, peluda e aveludada, alegria do neto curioso.

Dito isso, pergunto: quanto dura a vida de um cão? A experiência de tantos cães que passaram pelo meu pátio dão mostras ponderáveis: cinco anos, oito, dez. Neste caso, uma idade média de sete ponto cinco anos. Mas se vale uma certa informação de que para cada ano do cachorro valem sete do homem, meus cães morreriam aos cinquenta e dois anos.

Posta assim a questão, preciso apresentar o Lúpi, o cão que veio das bolachas, que já lograva a provecta idade de treze anos, isto é, noventa e um. Vítima de males próprios desta idade, dá para afirmar que estava senil e necessitava de cuidados de terceiros para sobreviver. Parcialmente cego, eventualmente surdo, carregava pelos membros reumatismos advindos, sem dúvida, de onze atropelamentos de automóveis, nove de motos, dezenas de bicicletas. Anexa-se aí uma perfuração intestinal por dentes de outros cães, uma imersão total em piche derretido seguidos de oito banhos em querosene pura, e três broncopneumonias duplas. As internações ficam por conta dos custos adicionais de suas aventuras sócio-amorosas.

Os problemas do Lúpi eram, em seus últimos dias, com a senilidade. Não conseguia libertar-se de antigos costumes, como o de correr atrás de automóveis ou de qualquer veículo que se movia. Como a cegueira e surdez não permitiam identificar tais veículos, era comum ver o Lúpi erguer-se de profundos sonos e sair em desabalada carreira atrás de um automóvel hipotético, rua a fora. Nestas ocasiões, parece, dava-se conta do ridículo que estava fazendo e parava, olhando para os lados como a ver se alguém percebera seu fiasco. Como não via um palmo adiante do nariz, retornava lentamente. Então, invariavelmente, buscava um poste para ainda marcar seus antigos domínios. Erguia a perninha esquerda, já que a direita não mais subia por questões de ossos mal colados. Mesmo assim, a perna esquerda não se erguia mais do que dois centímetros e acabava mijando em si mesmo.

A idade não lhe tirou a coragem e o instinto de defesa e ataque. Era comum assistir a furiosos latidos contra paredes vazias, como se ali estivesse um perigoso inimigo. Nesses momentos, era perigoso acalmá-lo com um afago, pois poderia pensar que o suposto inimigo já estava no seu pescoço. Então seria um salve-se quem puder.

Alimentava-se bem, embora o faro parecia ter sido atingido pelo tempo. Já não distinguia exatamente uma pedra de um osso e, se não fossem problemas dentários, provavelmente teria congestões homéricas de cascalhos. A questão do faro revelou-se por inteiro quando do aparecimento de uma cadelinha em pleno cio. O Lúpi, à primeira vista, parecia ter rejuvenescido setenta anos. Olhos brilhantes, corridinhas em torno da cadela quase sempre perdendo-a de vista, gritinhos histéricos. A gravidade do caso mostrou-se no momento em que deveria exercer sua função reprodutora. Excitado demais para sua idade e com a adrenalina saindo pelos poros, saltou em cima de uma pedra que enfeitava o jardim, agarrando-a com fúria. Tentativa, evidentemente infrutífera, que o prostrou na mais profunda depressão existencial.

Morto o Lúpi, hoje ainda me condeno por não ter tomado providências psicológicas pois que, abatido e estressado, necessitava de um analista que pudesse recompor sua dignidade.

(Dedicado ao meus confrades da Academia-Santo-angelense de Letras)