Um missioneiro com 151 anos de idade. Você acredita?

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Diz-se por aí que o homem atual vai viver mais do que as gerações do século passado. Atribuem essa longevidade a diversos fatores, entre eles o avanço das ciências médicas e a descoberta de novas drogas para a cura de doenças antes incuráveis. Pessoas com mais de cem anos serão tão encontráveis como os septuagenários de hoje.

Mas se alguém acha que a longevidade não andou morando em nossas plagas missioneiras, vejam o que diz Hemetério José Velloso da Silveira, o pernambucano que residiu em Cruz Alta, lá pelos anos de 1855 em diante, e andou por todos os cantos das Missões numa época em que a catástrofe missioneira ainda fumegava. As informações que seguem estão nas quase seiscentas páginas de seu livro As Missões Orientais e seus Antigos Domínios. Esse livro é indispensável para quem pensa que conhece o Rio Grande daqueles tempos perdidos.

No capítulo em que trata da Região Serrana, Hemetério traça um perfil surpreendente dos ares que hoje respiramos. Não que fosse um paraíso, mas quase! Talvez até verdade, pois que já lá se vai mais de um século e tanto. Ele afirma que uma das consequências benéficas do clima ameno, sem frios nem calores excessivos, com águas cristalinas em todos os rios, com matas infinitas, com abundância de alimentos, e longe, muito longe de tudo, é a razão da longevidade encontrada na população daquela época na região missioneira.

E não é uma afirmação gratuita: mata a cobra e mostra o pau, como por exemplo o cacique Fongue, de Santo Ângelo, que morreu em 1886 com 151 anos de idade, e em perfeita lucidez, pois narrava para médicos, engenheiros e militares episódios do tempo da Guerra Guaranítica, episódio que ocorrera nos anos de 1754 a 1756. Com essa idade, ele podia ter ajudado a construir até a igreja de São Miguel, ou ter frequentado a escola de ler ao lado de Sepé Tiaraju, ou ter resistido com armas ao General Gomes Freire de Andrada, dentro das ruas da Santo Ângelo missioneira. Esse cacique era uma história inteira ambulante!

Mas não que ele fosse o único a chegar a uma idade fantástica como essa. Hemetério segue apontando um negro chamado Honório Dias, africano, escravo trazido em 1788 e que morreu em 1902 com 146 anos. Esse conheceu São Paulo quando tudo era mato!

Depois vem um fazendeiro de Passo Fundo, paulista de procedência, finado com 132 anos de idade. Cita ainda mais 31 outros homens e mulheres, nenhum com menos de 100 anos, e todos vivendo na região missioneira. Considerando que era um território quase desabitado, dá para dizer que esse número de centenários é mesmo surpreendente.
Em seguida, Velloso aponta mais 53 nomes de pessoas que morreram com mais de 90 anos. E informa ainda que os que se finavam com mais de 70 e menos que 90 anos eram em número seis vezes maior.

Diante disso, dá para acreditar naquilo que eu conto no meu livro “As Missões dos Sete Povos” a respeito do último chefe guarani das nossa Missões, que era uma índia, Maria Luisa Cuñambuy Tiraparé. Ela, viúva de Fernando Tiraparé, último cacique homem a chefiar os índios dos Sete Povos, herdou o comando do grupo, já em território uruguaio, adotando o nome de Luisa Tiraparé. Morreu, em Durazno, Uruguai, aos 115 anos. É o que consta no Registro Civil daquela cidade.

Se esse quadro de longevidade tivesse dado sequência através dos anos, coitado do Brasil e sua Previdência Social. A proposta para aposentadoria por idade seria um prego no calcanhar do Estado – enferrujado! E bota enferrujado nisso!

Mas os tempos mudaram, as doenças modernas vieram no rastro da urbanização e solaparam a longevidade. Mesmo assim, há por aí centenários que resistem ainda, e mandam ver um chimarrão todas as manhãs de seus 100 anos. Pare esses, o estresse ainda não nasceu.