Um predicado feminino

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(Homenagem à mulher pela passagem de seu dia, em 2013)

Quando se quer falar de qualidades, atributos, características e notas específicas das pessoas, há que se ter conhecimento de causa. E quem deve ter esse tipo de conhecimento são os psicólogos, seguidos de todos os “psico alguma coisa”, como psicoterapeutas, psicoontológicos, psicopedagogos e mais uma centena deles. Como não me enquadro em nenhum desses “psicos”, posso estar pisando em ovos quando me arrisco a falar de um predicado feminino, já que falar das mulheres é perigoso.

No entanto, é de domínio público que no fundo da alma feminina, lá onde não chegam as luzes comuns, está fixado um valor inestimável: o mistério. Esse atributo é próprio da mulher e, talvez, seja o que essencialmente assegura o ser feminino. O mistério, como predicado específico da mulher, sobrepuja todas as outras perfeições femininas, muito além da beleza física. Sem a característica do mistério, a mulher perde o charme a que estamos acostumados a ver e a sentir quando essa criatura passa ali, do outro lado da rua, tão leve e livre quanto misteriosa e única. Alberto Lima, um psicoterapeuta e professor que segue os métodos de Jung, diz o seguinte sobre a falta desse atributo feminino, na mulher:

– O mistério feminino é portador de saberes, não de conhecimentos; tem o tempero do Eros, em contraste com as disposições masculinas, mais adeptas do Logos; liga-se ao dinamismo da magia, não da tecnologia. Se impedida de nortear-se por seu mistério, a mulher se esvazia do que lhe é próprio, masculiniza-se, vive uma espécie de morte psíquica difícil de reverter”.

Isso é assustador. Mais assustador se soubermos que quem pode facilmente anular essa característica tão fundamental para o ser feminino é o homem. O homem e sua eterna incompreensão quando se trata de entender a discrição, o silêncio, os recuos da mulher que está ao seu lado. Até naquele momento em que a mulher chora sem que, para o homem, haja um motivo aparente, o machão acha que ela é simplesmente uma chorona, quando, na verdade, é uma das manifestações do mistério próprio dela. Diante das lágrimas sem motivo aparente, o homem desconfia nem sabe do quê, exige transparência, sem lembrar que não há possibilidade de transparência para o mistério.

O problema é como conciliar a exigência masculina de querer tudo na superfície, com a exigência feminina de discrição, recato, silêncio e profundidade. Se ele aperta, ela é defasada em seu íntimo feminino; se ela é que aperta, ele é castrado em sua figuração de claridade. Um dilema quase insolúvel diante de um paradoxo com o qual homem e mulher se deparam em seu relacionamento, e têm que ser resolvido sob pena de um dos dois frustrar-se e anular-se.

Uma mulher, a quem muito prezo, disse-me que quando está ensimesmada, quieta e “fora da casinha”, é porque está pensando em coisas de seu interior ainda não esclarecidas.

Ora, ora, minha cara amiga, talvez jamais serão esclarecidas essas coisas que, de quando em quando, afloram ao pensamento e a deixam entre a tristeza e a alegria. Mas se creditares ao mistério, esse teu atributo tão particularmente feminino, e que te é peculiar, vais ver que tudo não passa de preocupações que a razão pergunta com a finalidade de não conseguir respostas. Mistério!

Quanto à obtenção de um pêndulo que não puxe para o lado de ninguém num relacionamento entre homem e mulher, parece que a única saída ainda é a mesma de todos os tempos: cada um cede um pouco até que o equilíbrio se estabeleça: nem tanto ao Logos, nem tanto ao Eros. E só desse jeito a mulher continuará feminina, e o homem, masculino.

Pensem nisso, oh homens de pouca fé nas mulheres. Aproveitem o resto do verão que é o tempo de mulheres mais bonitas em seus corpos menos escondidos.