Um presente para setenta e tantos anos

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Dia 30 passado aniversariei. Não sei quantos anos um homem faz quando passa dos setenta. A essas alturas da vida, aniversariar é sempre com uma pulga atrás da orelha. No meio da badalação caseira, a Internet encarregou-se de me deixar centenas de mimos através de palavras animadoras. Algumas, consoladoras. Outras, gozadoras. Entre tantas, eis que me brinda com este poema o nosso Drummond, o mestre Girvani Poeta Seitel, meu ex-aluno, colega, confrade, louco de estudioso. Seu poema, abaixo, misto de filosofia e sentença de vida, ajudou-me a aproximar-me da verdade. Preciso reparti-lo com meus leitores. Não pedi licença para publicá-lo, mas o Girvani vai me perdoar em virtude de minha provecto tempo.

A SEDE DO PEIXE
Girvani Poeta Seitel

“Uma noite interromperá nosso repouso de peixe.
Do silêncio gritante do quarto
pularemos para alguma mão que saiba
do poder de uma migalha.

E lá, na concha das mãos – do mergulho à purificação d’alma –
desvirginaremos um novo mar.
Gritar que a liberdade vêm de dentro,
como uma onda que sobe ao peito á flor d’água
e retorna, ao berçário líquido
onde só a poesia sabe morar.

À noite, com seus rumores que vêm de dentro.
Lembranças tangendo a insônia.
Saudades camufladas entre a urgência do vermelho,
ricocheteando como balas perdidas
pelas veias – labirintas.
O sonho pendurado no cabide, o incêndio na cama.
Suspiros pelas frestas da janela a gemer longamente.
Na íntima negrura o coração a conspirar,
bombeando os primeiros passos do menino.
Lânguidos arrepios retalhando a pele em labaredas,
pondo-me a cantarolar arcaicas cantigas
ninando os ingênuos cauda-d-véu no aquário.

Uma noite será preciso navegar
para o outro lado do espelho e rirmo-nos
da nossa insensatez ao ensaiar de um sorriso.

Uma noite despertará nosso repouso de peixe.
Da palpável frenesi do quarto
pularemos para alguma mão que saiba
repartir uma migalha.

Para então, no mar da concha das mãos
explodir os recifes que atracam os nossos sonhos,
permitindo-nos navegar
do finito ao infinito.
Acreditar, que lá no fundo
entre um abismo das linhas da pele
dorme uma verdade ainda transparente.
Uma certeza de outra Vida,
e mais outra,
Outra,
outra…..