Um símbolo para Santo Ângelo

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Símbolo é aquilo que, como uma logomarca, representa determinada instituição, empresa, cidade, clube ou país. Mas não só representa como tem que ter representatividade em si, isto é, o símbolo deve conter dados informativos e culturais inerentes ao que ele representa. É o caso das bandeiras nacionais: as cores, os desenhos, as formas. A maioria dos símbolos nasce espontaneamente, pela evidência do que representam: outros, carecem de muito tempo para adquirirem o que chamamos de representatividade.

Há alguns dias, Santo Ângelo discutiu alguma coisa sobre o seu símbolo. Não que já não houvesse definição anterior sobre este tema. O ipê amarelo, aquele que pinta de ouro a Avenida Brasil “nas manhãs setembras”, foi eleito como símbolo da cidade, faz alguns anos. Parece que não pegou. Foi eleito mas não assumiu. E não assumiu por quê? Creio que lhe faltou representatividade natural. Aquelas belas árvores, quando floridas, foram ali plantadas no governo municipal de Leônidas Ribas. E por mais que a população as queira bem, elas não têm a originalidade e particularidade de que precisam para se tornarem o símbolo efetivo e espontâneo de Santo Ângelo. Falta ao ipê amarelo da avenida mais história.

Evidentemente que há outras marcas para a cidade. A catedral, por exemplo, é fortíssima candidata, já que perdemos no tempo os cinamomos e a cruz missioneira (esta que é originária da cidade de Santo Ângelo). O Anjo da Guarda poderia ser nosso símbolo, mas creio que não emplaca. Não há muita gente que liga Santo Ângelo com Anjo da Guarda. O Cristo Morto? Não tem cacife. O Museu Municipal? (…beicinho). Diogo Hase ainda é um ilustre desconhecido. A antiga Estação da Viação Férrea? Há muitas delas por esse Brasil. Os monumentos à Coluna Prestes? Estes são jovens ainda.

No fundo, temos que reconhecer que não possuímos aquela marca inconfundível como o é a catedral. Uma réplica aproximada do que foi a antiga igreja da São Miguel jesuítica e que lembra nossas origens, despertando a curiosidade dos visitantes, isso já é marca. Fiquemos com a catedral, vá!

Fiquemos com a catedral? Sei não! Sua representatividade está, como dissemos, no fato de imitar a igreja da redução de São Miguel Arcanjo, hoje em ruínas no município de São Miguel das Missões. Dessa forma, sempre que apelamos à catedral como símbolo representativo de Santo Ângelo vamos depender de São Miguel Arcanjo. Seremos sempre uma espécie de réplica, de imitação, de cópia, de representação, de arremedo. E isso é constrangedor.

Então eu volto ao anjo que está por trás do nome da nossa cidade: angelus, Anjo da Guarda, Santo Ângelo Custódio, San Angel Custodio. E o que mais me faz inclinar por essa simbologia é um relato de um antigo visitante, Felix Azara, no seu “Descrição Histórica e Geográfica do Paraguai”, que afirma que as muitíssimas imagens feitas pelos artistas da redução de Santo Ângelo, todas tinham asas. Sim, todas tinham asas.

É certo que não temos nenhuma pra comprovar essa informação, mas temos a afirmação de quem esteve aqui e viu as imagens, todas com asas. Ora, aí está o fulcro para se instalar um símbolo poderoso, único, particular, tanto com a força indefectível da história como pelo nome que se perpetuou junto às asas dos anjos.

Pois eu sempre achei sintomáticos os eventos como Natal dos Anjos, Cidade dos Anjos e outros que carregam esse símbolo. E não é por nada que, nos anos 1953 a 1955, Valentin Von Adamovich, “o gênio esquecido”, como o denominei em artigo sobre sua vida em 1979, esculpiu na fachada da catedral, ali abaixo das imagens dos sete santos dos Sete Povos, anjos, anjos com a cara de índios, anjos com a cara de europeus, anjos com a cara de anjos. Acho que Adamovich pensava como eu: aqui é a cidade dos anjos.