Uma cultura adormecida

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Entre os diversos pavilhões da recente FENAMILHO, lá estava o Pavilhão da Cultura. Nessa edição da Feira, foi centro de muitas atividades culturais significativas, além da mostra da evolução cultural de nossa gente.

Uma das atividades chamou a atenção de todos: o número de lançamento de livros. Foram dezoito obras lançadas, quase todas com a presença de um público notável, lotando o espaço destinado para os convidados dos autores. Esse número, por mais variados que fossem os livros, é sintomático da evolução da área literária que acontece na comunidade santo-angelense. Talvez fosse resultado das Feiras do Livro que se repetem a cada ano; talvez resultado da presença da Academia Santo-angelense de Letras que investe nessa área de produção literária; talvez outros “talvezez”, mas impressiona a quem observa esse viés de nossa cidade.

No meio dos inúmeros visitantes que passaram pelo Pavilhão da Cultura, lá me deparei com uma menina, diga-se assim, que vigiava o ambiente com um sorriso franco e olhos vivos. Pareceu-me que era uma presença constante, até que me foi apresentada como amiga de uma das coordenadoras do Pavilhão, a competente e zelosa professora Maria Lúcia da 14ª CRE. Fiquei sabendo, então, que era de Pelotas, que lá cursava o ano final de Letras, e, surpreendentemente para mim, que escrevia sonetos.

Sonetos? Quantos anos você tem? Vinte e dois. Bem, não é mais uma menina como sua aparência se me aparentava. Mas, mesmo assim, uma bela mocinha que escrevia sonetos!
Talvez o leitor não entenda minha surpresa. Escrever sonetos nos dias atuais é como mulheres usar anáguas, ou pó-de-arroz, isto é, do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Ninguém mais escreve sonetos, um gênero da poesia que é tão lindo e envolvente quanto difícil. Ainda mais sonetos clássicos, daqueles que se encontram nos versos de Camões, de Boccacico, de Bocage, ou Cruz e Souza, ou Vinícius de Moraes ou Florbela Espanca, só para citar meia dúzia que me vêm à lembrança agora.

Vejam, o soneto é uma composição poética adormecida. O poema de versos livres é o que impera. Digo versos livres da métrica, da rima, dos pés exatos em cada verso, das regras que extenuam o poeta na busca da palavra certa nas noites de vigília em busca dos sentimentos que querem libertar-se das prisões dos fundos da alma através do verso. Existe isso ainda?

Pois acho que sim, que ainda podem ser encontrados poetas que sabem o que querem, que descobrem a veia semiviva do soneto, a forma que imortalizou tantos vates e que, com certeza, vai imortalizar os que a descobrem no meio desse mundo globalizado e maluco. E a poeta de que falo acima, a mocinha do Pavilhão da Cultura, é uma delas. Chama-se Shaiane Bandeira, surpreendente pela qualidade do verso, uma Florbela Espanca pelotense. Vejamos um de seus sonetos que admiro:

SILENCIOSOS TONS

Shaiane Bandeira

Se a infausta dor no rosto se estampasse,
Como no céu se estampa o sol distante,
Talvez tocasse esse teu peito errante,
Talvez algum efeito em ti causasse.

Se o áureo tom não visse mais a face
E o meu sorriso já não dominante,
Talvez assim, mesmo que num instante
Meu peito amante o peito teu tocasse.

E assim, rompendo os ferros d’armadura,
Talvez ao ver tão pálida figura,
De um sentimento triste tu te apiedes.

Mas tendo com afeto quem repousa,
Lerás à noite, no branquear da lousa:
“Amá-la agora – nunca mais – é tarde”.