Uma história de amor nas Missões

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Sei perfeitamente que ninguém é obrigado a conhecer a História das Missões. Sei, também, que os que a conhecem, seu conhecimento limita-se aos fatos principais ocorridos nas Missões Jesuíticas, nos quase 150 anos dessa experiência civilizatória havida nos hoje territórios do Paraguai, Brasil e Argentina. Mesmo assim, excetuando-se os historiadores, para a maioria das pessoas, as Missões ainda estão envoltas numa espécie de nevoeiro, onde a lenda e a história se mesclam, entrecruzam-se e se confundem.
Um exemplo é o dia a dia nas reduções: não era um quadro que se pudesse pintar com cores sempre vivas e lindas. Nem é fácil encontrar documentos de onde se pode tirar com mais clareza e evidências o comportamento em sociedade dos índios reduzidos. Mas dá para imaginar que os padres teriam que saber tanto relevar certas manifestações de integrantes do grupo, como proibi-las ou erradicá-las sumariamente, sem o que os “estragos” nos seus objetivos religiosos, econômicos e organizacionais seriam muito sérios.

Um dos grandes problemas encontrados pelos padres em relação aos costumes dos índios foi a poligamia. Ter mais de uma mulher, era tanto sinal de poder temporal como poder de convencimento pela palavra. Lê-se que havia mandatários tribais que puderam sustentar até vinte mulheres, embora uma só fosse a escolhida, isto é, sua esposa. Porém, quando acertado com os padres que sua tribo iria para dentro de uma redução, o fato do chefe ter que deixar as mulheres tinha um sabor de perda de poder e não somente uma questão de concubinato. E isso doía nos caciques.

À mercê desse assunto, há um registro que narra um episódio muito interessante, capaz de servir de tema para um drama de amor e perdição. Trata-se de uma história de amor, e não uma lenda ou invenção como muita coisa corre por aí ao sabor da cabeça de romancistas e poetas.

Um dos caciques recém chegado com sua tribo a uma redução, topou de largar suas mulheres, ficando só com a esposa e mais uma, em especial a quem devotava louca paixão. Para os padres, isso não seria possível. Era permitir um péssimo exemplo, além do descumprimento da regra geral: uma só mulher. Duas, seria conviver em pecado, o que, para a época, conduziria ao fogo do inferno os três e mais o padre que permitisse tamanho absurdo.

No entanto, para esse tipo de espinho no coração dos ensinamentos da igreja, os padres tinham soluções drásticas. Uma delas era mandar a mulher para o exílio, isto é, para bem longe, e que não fosse para uma redução. Afinal, aquele tipo de mulher era um pecado ambulante. Os padres, então, mandaram a “amante” para um povoado espanhol, longe da redução. Esperavam que a distância abrandaria o fogo da paixão do cacique.

Mas fogo de paixão não se apaga com a distância. Muito menos um amor enorme. Depois de alguns meses, o cacique, sofrendo muito com a separação de sua amada, abandonou tudo o que tinha, a mulher legítima, filhos, casa, terras, bens, amigos e parentes, e se foi em busca da amada.

Tendo-a encontrado, instalou-se com ela numa pequena choça com um roçado, fora dos limites da redução, e lá criou uma nova família, nunca lhe sendo permitido voltar para a redução, embora o quisesse. Magoado e triste, já velho e doente, abandonado morreu. Só então, os padres resolveram dar guarida à mulher, que feitos a confissão e o arrependimento, retornou à antiga redução, onde tinha parentes. Ali, também já velha, teve uma morte cristã.

Estas cenas se parecem muito com casos que ocorreram e ocorrem com frequência na história da humanidade. É um filme que todos já vimos por aí. A diferença se impõe por alguns aspectos que tornam o drama deste cacique e daquela mulher muito peculiar e que se enchem de dramaticidade. Uma paixão interrompida pela força já é uma dor insuportável. O mundo está cheio de Romeus e Julietas, dramas contados em prosa e verso desde todos os tempos. Mas no caso desse cacique, havia outro drama, a da consciência martelando dia após dia as consequências de seu ato frente ao castigo que a palavra dos padres impunha: o fogo do inferno. Além disso, abandonar parentes e filhos, para os índios também era motivo da acusação. Em suma, um proscrito, um pária, um maldito, um imperdoável.

Ora, essa história de amor daria, sim, um romance e tanto. Um romance missioneiro.