Vemos e ouvimos

0
116

– Eu não acredito!

Foi isso que exclamou minha amiga quando o garçom chegou até a mesa onde jantávamos e, sem mais nem menos, arrancou a toalha ensacando tudo, como uma trouxa, pratos, talheres, copos, vinho, e simplesmente disse que precisava daquela mesa. Enxotou-nos. Fora! Fu!

Incontinente, o fia da mãe do garçom se rasga todo em sorrisos e salamaleques na direção de três rapazes e os conduz para a mesa que era nossa. Logo depois ouvimos uma voz que dizia:

– Você também faria sucesso se vendesse carros assim!

Em seguida, toda a cozinha posou para fotografia com os três.

Pior foi no teatro. Estava lotadíssimo e havia uma fila enorme de pessoas que queriam entrar. Os porteiros impediam a todos, até que chegaram os três rapazes, os mesmos lá do restaurante.

Pois um porteiro, com um sinal, solicitou a outro três lugares. Não havia mais nenhum lugar. Então o que vimos foi os brutamontes dos porteiros atirando três pessoas para fora, como se fossem sacos de lixo. E outra vez, cheios de sorrisos e rapapés, abriram alas para os três moços, e mais uma vez aquela voz:

– Você também faria sucesso se vendesse carros assim!

Creio que já dá para entender do que estou falando. Mas creio, também, que a maioria das pessoas não entende de publicidade e propaganda. Eu não entendo. Apenas tento me defender examinando o que elas dizem e o que mostram. O resultado é assustador. A impressão geral é a de que, nos intervalos dos programas da TV, os donos da telinha pensam que todo mundo é burro. Que basta um estalo de dedos e todos correm comprar o que querem vender. Nem que seja expulsando o casal do restaurante sem explicações ou jogando as pessoas no olho da rua para dizer que o produto e tudo a que ele se atrela, até os vendedores, são superiores ao resto da humanidade. Ou, melhor dito, que quem tem um carro assim é um ser superior e que pode desrespeitar os direitos dos outros. Se isso não é promover a soberba, a petulância e o despotismo, é incitar a violência, sim senhor!

Eu disse que os donos da telinha pensam que todo mundo é burro. Mas eu disse pouco, pois que numa publicidade de televisores de certa marca, eles insinuam que quem comprou aparelhos de TV de outra marca é uma zebra. Não se lembram? A zebra aparece em diversos televisores, zurrando. Sem coragem de colocar aí um burro, optaram pela zebra, o que dá na mesma. E quem zurra é burro!

Compra quem quer e quem pode! Desligue a tevê se não gostou! Vá reclamar com o bispo! Fique na tua que eu fico na minha! Os cães ladram enquanto a caravana passa! E se não tem motivos para comprar, invente um!

E nessa ladainha que corrói as últimas resistências do homem, enquanto os poderosos a rezam, o mesmo homem vai engolindo tanto sapos, baratas, moscas e aranhas quanto carros, sapatos, vestidos, perfumes, et caterva.