Você está ficando velho

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Fim de ano, passagem do tempo, você está ficando mais velho. Mas não fique triste. Hoje em dia, dizem os bons presságios, os homens vão durar muito mais anos que as gerações passadas. Já falam em 80 anos como média de idade. Atribuem às práticas saudáveis de prevenção da saúde, à alimentação e ao avanço da medicina. Olhem os bebês – diz uma certa minha prima referindo-se à precocidade das crianças de hoje – quando nascem, já dão uma viradinha da cabeça para trás, para certificarem-se de onde estão saindo!

Tudo isso é muito bom! Dá para prever um mundo de velhotes ocupando espaços que são dos jovens. A seleção sub-20 deverá ser sub-60 e a seleção que disputará a copa do mundo de 2080 terá craques com 75 anos. Não haverá mais sexagenários e sim sesqui-centenários. Nem mais se falará que fulano nasceu no século passado, mas, sim, no século retrasado.

Mas essa realidade ainda está no imaginário do povo. O problema mais sério ainda está no presente, quando os homens atingem apenas os 60 e já entram na lista dos anciãos da tribo. E não gostam! Não conheço ninguém que se sente sexagenário ao completar 60 anos. Muito menos ancião! Estão ficando velhos, e não sabem.

Como saber, então? É fácil. Umas dicas podem ajudar a aceitar pacificamente que os anos estão pesando na balança, além da barriga que é comum nessa idade. Por exemplo, quando quer botar as calças e não conseguir ficar num pé só, se não estiver mamau, já é um sintoma. Se por acaso, nesse ato de vestir-se esqueceu de botar as cuecas, então o caso já é mais grave. No mesmo ato, depois de lidar para enfiar as meias, que você insiste em chamar de carpim, já tem dificuldade para meter os pés dentro do sapato e, pior ainda, não consegue amarrar os cadarços sem erguer o pé sobre uma cadeira, ou a barriga está além do permitido para sexagenários, decididamente você abandonou os bons anos da coluna elástica e dobrável. Está num limite, descubra qual!

Mas há outros sintomas que são mais sociais, isto é, que todo mundo vê. Por exemplo, depois de certa idade, tudo que é médico, terapeuta, nutricionista et caterva quer ver você caminhando. Só isso já é um sinal, um temido sinal! Mas não há necessidade de fazer caminhadas de sapato, meia preta, bermuda e camisa de manga longa solta na cintura. Caminhar é essencial para saúde, mas não precisa se expor desse jeito ao riso dos jovens.

No entanto, já que caminhar não é seu exercício predileto, nem vestir-se como um jovem é sua maneira de driblar os sinais do tempo, cuide de outra fatalidade que aparece no corpo dos sessentões, e que denunciam os anos. É o bumbum. Este fica quadrado se usar uma calça mais justa e se a cintura for presa na altura do umbigo. Mas, azar, se deixar a cintura cair para baixo do umbigo, expõe a barriga que você tanto quer esconder e, de lambujem, atrás, os fundilhos se vão além da conta. Para sua consolação, dizem que um bumbum quadrado é coisa de rico; fundilhos, à beça, é coisa de pobre. Mas para sua desolação, tanto para pobres como para ricos, esses aí são sintomas da idade provecta.

Brincadeiras e gozações à parte, um ano que se vai sempre deixa um lastro de acontecimentos que se alojam na memória e passam para o arquivo das lembranças. Nós somos, na verdade, o que as lembranças no fizeram. Somos a soma (que trocadilho infame) do que fizemos, do que nos fizeram, do que faremos. O começo de um novo ano nem sequer é uma marca de fato, além das festas, luzes, fogos coloridos na noite e do porco que comemos porque fuça para frente. O começo de um novo ano é a continuidade da vida, exatamente com as mesmas alegrias, com as mesmas tribulações, com os mesmos medos e as mesmas mazelas de nosso corpo e de nosso espírito. Isso não é uma coisa triste. Triste é achar que no primeiro dia do novo ano seremos outros, só porque uma nova marca do tempo está virando mais uma página. Bom é pensar no que essa virada de ano nos diz claramente, coisa que meu caro leitor poderá ver no espelho e ouvir, se quiser, de si próprio: “você chegou, meu caro. Chegou até aqui e vai longe ainda”.

Para esses que chegaram ao 2012, para todos esses, que esse ano seja mais um caminho em direção ao à luz, principalmente, à luz da vida. Mais um ano com saúde, prosperidade, sorrisos e alma aberta para a alegria. Alegria de viver.