A mesma assinatura

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Ontem, o processo de legitimação adotiva era muito fácil. Hoje, está muito difícil. Ontem, o casal acolhia a criança desde os primeiros dias de nascimento e dois anos depois partia para a legalização na via judicial. Bastava provar a convivência, as condições financeiras suficientes e logo logo, o casal ostentava para quem quisesse ver a certidão de nascimento fornecida pelo Registro Civil. Sem falar nos tantos casos daqueles que, simplesmente, corriam para o cartório e já pediam a certidão de nascimento, acompanhados de duas testemunhas. E era muito raro dar processo contra os pais e contra as testemunhas. Não me lembro de nenhum processo em Santo Ângelo.

Mas ontem como hoje a maior interrogação dos pais, já plenamente identificados com a criança, é contar toda a verdade para ela ou não. Alguns contam, mas a maioria não. Puro medo de rejeição. O mais certo, segundo psicólogos, é revelar desde logo que o menino é filho do coração. É preferível que os pais mostrem a realidade para o filho ou para a filha do que esperar pela indiscrição de colegas de aula ou de parentes fofoqueiros. Casal de santo-angelenses sem filhos e sem possibilidade de tê-los acolheu certo menino desde os primeiros dias. A alegria invadiu aquele lar, tudo se transformou no ambiente doméstico.

Com a marcha implacável do tempo o menino foi crescendo, estudando e se revelando muito carinhoso com os pais e muito cordial com os colegas. Nada sabia sobre o seu nascimento. Certo dia, porém, ele chegou em casa acabrunhado, alguém, sempre sem tem alguém, falou que ele não era filho do casal, que tinha sido abandonado pela verdadeira mãe. Questionada, a mãe do coração, verdadeiramente mãe, reagiu logo:

– Não acredite em gente maldosa, pura mentira. Você é nosso filho, sim senhor.

A vida para eles continuou como antes. Maldade superada. Poucos anos depois, já adulto, já em curso superior, aconteceu a chamada morte prematura do jovem adotado. Desastre de automóvel, a causa mais comum de provocar desencarnações na juventude. Foi o que deu. O pai também voltou para a vida espiritual. A mãe jamais absorveu a dureza do impacto. Doída, saudosa, inconformada, partiu em busca de consulta espiritual em outra cidade. Queria notícia do filho que, no sentir dela, tinha deixado muito cedo o ambiente terreno. Depois de procurar muitos médiuns sem nenhuma resposta (o telefone não toca daqui pra lá), eis que veio a sonhada resposta. Em ambiente de muita emoção e lágrimas escorrendo incontroláveis, o jovem desencarnado mandou mensagem através da psicografia de médium idôneo, respeitável, mostrando para a mãe a continuação da vida, comprovando que a vida não cessa nunca. Duas surpresas contidas na mensagem deram o tom de inquestionável veracidade à manifestação tão aguardada: a mãe sendo tratada como “minha mãe do coração” (no plano espiritual toda a verdade aparece) e a assinatura do rapaz, nome completo, e idêntico talhe da letra que usava no colégio e depois em todos os documentos por ele firmados.

A FRASE DO CHICO XAVIER – destacada por Claudete Meurer – Não me sinto insubstituível… Não passo de grama que cresce no chão; quando a grama morre, nasce outra no lugar…

PS – PRA CABECEIRA DA CAMA é o título do meu novo livro de crônicas, que será lançado no dia cinco de maio, às dez horas, na FENAMILHO. Os cem textos foram selecionados por Alessandra Jung e a capa é do artista santo-angelense Renato Tobias. A apresentação será feita pela confreira Dinalva Agissé Alves de Souza, presidente da Academia Santo-angelense de Letras, entidade que está completando vinte anos de existência.