Desprendimento dos bens terrenos

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O padre Lacordaire, dono de excelente oratória, lotava a famosa Catedral de Notre-Dame de Paris, em sermões dotados de bom senso e lógica. Em 1861, Lacordaire retornou ao plano espiritual e dois anos depois ditou importante mensagem sobre o desprendimento dos bens terrenos, encaixada por Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo. Entre outras considerações, o antigo vigário da mais conhecida catedral parisiense aconselha os seres terrenos de todas as crenças:

– Sabei contentar-vos com pouco. Se sois pobres, não invejeis os ricos, porquanto a riqueza não é necessária à felicidade. Se sois ricos, não esqueçais que os bens de que dispondes apenas vos estão confiados e que tendes de justificar o emprego que lhes derdes, como se prestásseis contas de uma tutela. Não vos julgueis com o direito de dispor em vosso exclusivo proveito daquilo que recebestes, não por doação, mas simplesmente como empréstimo. Se não sabeis restituir, não tendes o direito de pedir, e lembrai-vos de que aquele que dá aos pobres, salda a dívida que contraiu com Deus.

Outro dia, quando lia o texto de Lacordaire, o correio eletrônico me trazia e-mail de um amigo, que prefere ficar no anonimato. Esse amigo é dotado de faculdades mediúnicas e costuma conversar com desencarnados. Pois, a notícia que ele me trouxe é justamente a de um espírito que não soube usar os imensos bens terrenos acumulados em nosso planeta. O espírito em apreço, quando encarnado, foi proprietário de avião, helicóptero, iate, mansões e residiu numa cidade do interior paulista. De repente, voltou ao plano espiritual, de forma inesperada, em 2011. O e-mail recebido diz mais:

– No verão de 2012, numa tarde eu descansava na praia de Camboriú e meditava na frente do mar. Um helicóptero volta e meia sobrevoava o local, atraindo as atenções de todos nós. Enquanto eu admirava a bela nave, chegou ao meu lado o espírito do antigo capitalista que fora meu amigo por vários anos, embora a minha pobreza. Depois das primeiras palavras e das inevitáveis lágrimas de nós dois, começamos a dialogar e lhe perguntei se não tinha saudade do seu helicóptero e do vasto patrimônio que tinha construído por aqui. A resposta veio logo:

– De fato, sinto saudade de tudo que tinha e que deixei aqui. Onde eu me encontro não existem esses bens, mas reconheço que os bens terrenos atrasaram meu crescimento espiritual. Fui muito egoísta e lembro dos teus conselhos, da tua sinceridade e do teu desapego aos bens materiais. Eu e outros amigos comuns te esperamos na vida espiritual, para continuarmos nossa amizade.

É claro que o desencarnado que reconhece o egoísmo que o marcou no cenário terreno não leu ou não quis ler a mensagem de Lacordaire. Fez falta para ele. É uma pena, pois hoje estaria bem mais evoluído, teria sabido usar a riqueza em proveito dos semelhantes. Saberia que ninguém é dono de nada por aqui. Como tantos outros, para ele a vida terrena consistia somente em ficar cada vez mais rico, ao mesmo tempo em que ignorava solenemente a brevidade da vida humana, lição antiga, sempre ensinada e sempre esquecida.

Pensem nisso, caros leitores, como diria o comentarista esportivo Antônio Evaldo, o Pontes, em todas as manhãs santo-angelenses.

A FRASE DO CHICO XAVIER – destacada por Paulo Lima – Todo espírita que se preze, estuda e divulga Kardec, semeando no coração das pessoas a esperança e o consolo que as obras do Codificador podem nos proporcionar.