Medo da morte

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 Ao contrário de americanos e europeus, o brasileiro utiliza pouco o testamento para dispor de seus bens, que só poderão ser desfrutados pelos contemplados, logo depois da passagem do testador para a vida espiritual. Há poucas semanas, a Folha de São Paulo noticiou o estranho testamento deixado por senhora viúva, sem filhos, muito rica, residente na Europa, que destinou a bela importância de dez milhões de euros para… o gato de estimação! Por deixar de fazer testamento, sob os mais variados e improcedentes motivos, muitos solitários tornam complicada, com muita briga entre parentes, a partilha do seu patrimônio material. É que a maioria ignora ou não quer tomar conhecimento de ensinamento milenar sobre a brevidade da vida humana, lição sempre ensinada e sempre esquecida.

O santo-angelense Gilberto Moraes Nascimento, atual Tabelião de Notas e Protesto de Roca Sales (RS), leu crônica que escrevi sobre pessoas que não tiveram pressa e partiram para o plano espiritual, sem dar cumprimento aos seus desejos. Dele agora recebi oportuna colaboração, ditada pela vivência notarial, que passo para a reflexão dos leitores da coluna:

– A situação narrada, apesar de curiosa, é muito mais comum do que se imagina. Não raras vezes, as pessoas nos procuram no Tabelionato e manifestam seu interesse em testar algum bem a algum ente querido, mas a grande maioria, realmente, fica apenas no “comentário” já que por medo ou preconceito em relação à morte, não consumam o ato testamentário. Entendo que a pouca utilização do testamento tem muito a ver com o fato de estabelecermos uma disposição “post mortem” tão solene como o testamento, estamos de certa forma encarando de frente (de forma oficial) a nossa própria finitude física.

Está certo o amigo Tabelião, absolutamente certo. O cardiologista Fernando Lucchese costuma comentar que o ser humano se prepara desde a infância para enfrentar os desafios da vida física. Desde os seis, sete anos de idade, a criança começa o ensino fundamental, mais cursos paralelos de idiomas ou matemática. Mas, estranhamente, salienta o dr. Lucchese, o homem não se prepara para a vida espiritual. Teima em não acreditar na sábia lição que versa sobre a brevidade da vida humana ou de encarar a finitude da vida física, no dizer do Gilberto. Alguns acreditam que estarão por aqui uns cem anos, no mínimo. A saúde está ótima, os negócios estão prosperando, e eles vão adquirindo imóveis e mais imóveis…

O médium Chico Xavier recebeu muitas mensagens do Alto, dando conta de que os apegados aos bens materiais – justamente os que não se prepararam para o inevitável retorno –, agem como se ainda fossem donos dos bens terrenos, o que lhes traz, evidentemente, pesados sofrimentos. Não é errado ter propriedades, mas a escravização a elas traz muito desconforto no outro lado da vida. É bom pensar no assunto, com a seriedade possível, enquanto há tempo, pois não é só o vizinho da esquina que está na fila do desencarne.
Por outro lado, bem preparada para a vida espiritual, a irmã de fé Maria Loni Madrid responde à minha indagação, em encontro ocasional de rua, se tem medo da morte:

– Não tenho, a mala está pronta para a viagem!

A FRASE DO CHICO XAVIER – Aos que imploravam por uma mensagem psicografada, o Chico apontava para o alto e repetia:
– O telefone só toca de lá pra cá.