Mil palestras

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Outro dia, postei na rede social pequena nota sobre o trabalho voluntário, desinteressado, de cidadão da comunidade a recolher garrafas de plástico em todos os recipientes de lixo que encontra pela frente. Choveram curtições e comentários de aplauso ao Felício Scholl, cidadão simples, despreocupado com os holofotes da ilusão. A Vera Paz Jagielski comentou que o Felício é um exemplo para todos nós. Especialmente para aposentados que poderiam destinar o tempo ocioso para envolvimento em instituições filantrópicas. Eu o encontro diariamente envolvido nessa missão abnegada, sem uso de luvas protetoras, junto ao local do depósito de lixo do Edifício Tropical Center, na esquina da Avenida Brasil com a Florêncio de Abreu.

Aposentado da Previdência Social, com mais de 70 anos de idade, o Felício me conta que sai da cama às 5 horas e às 6 horas já está nas ruas da cidade. Nascido em Crissiumal, o Felício chegou jovem a Santo Ângelo e se encantou com a moça elegante chamada Alda Dullius, filha do casal Carlos Dullius. O Dullius tinha depósito de bebidas na Florêncio de Abreu e fora do serviço participava da Banda Estrela Dalva, do pessoal do Curtume Basso, comandado por João Basso, sob a regência do Andolcher ou do Carlos Slivinski. Não deu outra. Deu casamento com a Alda e a chegada de três filhos, dois homens e a futura estudante de Medicina. O depósito de bebidas continuou no mesmo lugar com o Felício e, em certo tempo, contou com o sócio Walter Spannring.

As peripécias da vida terrena não poupam ninguém: dois acidentes de automóvel levaram para o outro lado da vida o irmão psiquiatra e a Débora, a filha amada ainda distante da conclusão do curso na Faculdade de Medicina de Pelotas. Dá pra imaginar o abalo dos pais da jovem. Certa vez, a convite do Felício e da Alda, estive na casa deles e fotografias da moça ocupavam várias paredes, aumentando a angústia dos familiares. Hoje, o Felício sente-se gratificado em recolher garrafas de plástico e entregá-las ao Lar da Menina. Comercializadas, rendem alguns recursos financeiros para a instituição filantrópica que, em décadas passadas, contou com o trabalho devotado do casal Heitor Garcia Rial, médico e Major do Exército, e Anita Fortuna Rial.

Católico convicto, o Felício não perde missa dominical na Igreja da Sagrada Família. Quando o recolhimento das garrafas, feita também aos domingos, o impede de chegar a tempo então busca o apoio religioso na Catedral. Em certo domingo, o nosso amigo deixou muitas sacolas abarrotadas de garrafas em lugar estratégico na frente da Igreja da Sagrada Família e foi rezar. Ao término do ato religioso saiu ligeiro em busca do carregamento, carga preciosa obtida à custa de muitas caminhadas. Para decepção dele, a carga tinha sido surrupiada por amigos do alheio… Mas aí, leitores, está, sem dúvida, eloquente exemplo de solidariedade, de prática de caridade, que vale mais do que mil palestras. É aquela história muito verdadeira de que as palavras podem emocionar os ouvintes, mas os exemplos, só os exemplos, são capazes de arrastar seguidores das lições do Mestre dos Mestres. Outro detalhe muito válido: o Felício não tem tempo pra pensar em depressão…

A FRASE DO CHICO XAVIER, curtida por Jorge Meirelles Corrêa: “Crê em ti mesmo. Age e verás os resultados. Quando te esforças, a vida também se esforça para te ajudar”.