O suicídio que não houve

0
138

Em agosto de 1954, o Brasil vivia dias agitados em razão de denúncias do jornalista Carlos Lacerda contra a guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas. Houve atentado a tiros contra o jornalista, atingido num dos pés. O exacerbado clima político levou o presidente ao suicídio, no dia 24, em seu quarto, no Palácio do Catete, pelas oito horas da manhã. Em seguida, as emissoras de rádio deram a notícia e começava a ser lida a Carta Testamento assinada por Vargas. Inconformados, populares desencadearam série de protestos nas principais capitais do país, sendo que em Porto Alegre foi depredada e incendiada a sede do Diário de Notícias, que pertencia à cadeia dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand.

No Diário então trabalhava o nosso amigo Edu Aquino Ávila, confrade da Academia Santo-angelense de Letras e comentarista da Rádio Santo Ângelo. Sozinho na capital, com o jornal quebrado, o Edu passou a viver séria crise financeira, com imenso cortejo de decepções e dificuldades. Sem nenhum conhecimento da vida espiritual, o nosso amigo passou a cultivar estranho e negativo pensamento, intuído por espíritos maldosos: partiria para o suicídio. No entender dele, na época, a eliminação do corpo físico seria a melhor e única solução, o ponto final de todas as angústias. Sem data marcada para a equivocada solução final, o Edu tinha se transformado em assíduo frequentador da biblioteca pública.

Pois na biblioteca é que ele encontrou a tábua de salvação. Certa tarde, deu dois ou três títulos de livros que gostaria de ler à bibliotecária. Instantes depois, o Edu recebia os livros solicitados e mais um que não tinha pedido. Era O Evangelho Segundo o Espiritismo, uma das obras fundamentais codificadas por Allan Kardec. Ao constatar o engano da moça, o confrade se preparou para devolvê-lo, com o acréscimo de alguma reclamação pela obra que não pediu. Ao se levantar da cadeira, mudou de ideia e arriscou ler algumas páginas. Nada sabia sobre a continuação da vida em outra dimensão. À medida que lia, duas, três páginas, ia se encantando com a simplicidade dos ensinamentos do Mestre dos Mestres à luz da interpretação de espíritos altamente evoluídos.

Lido o Evangelho, o Edu solicitou O Livro dos Espíritos. As perguntas e respostas recheadas de lógica e bom senso o encaminharam para a fé raciocinada. A louca ideia foi abandonada de imediato e o Edu está aí, lépido e faceiro, todos os dias participando do horário dos debates da antiga ZYF-6. É assim que se conta a história de um suicídio que não houve. Realmente, caro leitor, é muito raro se ter conhecimento do suicídio de um espírita. A autoaniquilação elimina o corpo físico, mas o corpo espiritual sente profundo remorso pela atitude infeliz e quase sempre implora uma oportunidade reencarnatória, num corpo deficiente, como reparação do erro cometido.

Então se compreende a Justiça de Deus, através do processo reencarnatório. O deficiente não foi punido, ele próprio implorou uma existência de sofrimento. Deus não pune nem privilegia quem quer que seja.

A FRASE DO CHICO XAVIER, sugerida por Izete Maria Machado Schneider – Lembre-se que o mal não merece comentário em tempo algum.