Parabéns ao sacerdote

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Aos doze anos de idade, aluno da primeira série de colégio católico, ouvia o professor de Religião ocupar todo o período da aula para tecer severas críticas à Maçonaria e ao Espiritismo. A molecada se encolhia no banco, respiração suspensa, ante as pesadas acusações contra os maçons, espíritas e umbandistas, todos enfiados no mesmo saco. Na época, todo aquele que fosse iniciado na Sublime Instituição ficava automaticamente excomungado. Ao lado dos colegas Isaac Sprinz, Alfredo Margis, Airton Capaverde, José Juska, Raul Viñas, Walter Prziczinski, Ceslau Warpechowski, Eduardo Warpechowski, Luiz Carlos Santos Silva, Carlos Wilson Schroeder e outros, eu matutava comigo mesmo:

– Isso não é verdade. Meu pai não é assassino, acredita em Deus, leitor de livros espíritas e um bom pai. Não tem o perfil de gente má, longe disso.

Vários dos colegas de aula daquela primeira série ginasial hoje são membros da Maçonaria. Alguns anos mais tarde, acompanhei um vizinho que foi solicitar serviço religioso para o pai recém falecido, com o velório em andamento na Rua Marquês do Herval, esquina com 7 de Setembro, onde hoje se localiza uma joalheria. Estupefatos, ouvimos o padre católico rejeitar o convite:

– Não vou, teu pai era maçom e nós não fazemos funeral de maçom.

Na semana passada, fiquei agradavelmente surpreso com a presença de um sacerdote católico na Loja Maçônica Renascença. Desconheço o nome dele, parece que é novo na paróquia, mas teve conduta exemplar, impensável há algumas décadas, como exposto. Com certeza, a excomunhão foi extinta pelo Vaticano em relação aos chamados pedreiros livres. Não sei também se o padre recebeu autorização superior ou se aquiesceu ao convite dos familiares, por decisão própria. Acontecia o velório do maçom Pedro Canísio Lippert, inativo do Exército, viúvo da professora EdI Flores Lippert, que dá nome a conceituado estabelecimento da rede pública de ensino. Canísio cumpriu na terra suas obrigações profissionais e familiares com zelo e dedicação, sem qualquer deslize.

Cumprido o ritual maçônico próprio para o ato, o médico Rolando Stümpfle, em nome da irmandade, lembrou a bela trajetória maçônica do Canísio, homem voltado para o bem, e então consolou os filhos e a viúva do segundo casamento, com as ajustadas palavras do Espírito André Luíz, psicografadas pelo Chico Xavier, ao nos confortar ante a desencarnação de um ente querido:

– Aqueles que amamos não morrem jamais, apenas partem antes de nós.

Em seguida, o sacerdote da Igreja Católica Romana cumpriu o ritual peculiar para a ocasião, com absoluto equilíbrio. Ao final, me acerquei dele e o cumprimentei pelo belo gesto de fraternidade. É o que se espera de todas as religiões: respeito mútuo, vivência fraternal, embora se ressalte que a Ordem Maçônica não é uma religião. Nela se abrigam pessoas de todas as crenças religiosas, num ambiente de harmonia e de respeito mútuo. Acredito que assim será num futuro distante onde estarão sepultadas furiosas agressões verbais por motivo de pensamento religioso do outro. É um sonho possível, não é utopia, embora essa fase ainda demore, em razão do atual estágio evolutivo da Humanidade.

O PENSAMENTO DO CHICO XAVIER – destacado por Cristine Peixoto – Tudo o que sou me foi um dia emprestado pelo Criador para que eu possa dividir com aqueles que entram em minha vida.