Requiescat in pace

0
120

 Há mais de vinte anos fui convidado pelo professor Moacir Locatelli, de Santa Rosa, que lecionava no Curso da Letras da URI, para falar sobre a morte, uns quarenta minutos. Com debate animado entre os alunos,o tema foi encerrado mais de duas horas depois, sem recreio. Nos cinco anos seguintes, sempre no mês de outubro, houve repetição da palestra com a mesma e intensa participação de todos. O professor Moacir gostava de ouvir o relato sobre o velório do Marcelo em Curitiba, assim sintetizado:

– No momento, agradeci o oferecimento de um padre jesuíta e eu mesmo falei sobre o ato, muito difícil para um pai na frente de um jovem de 19 anos de idade, desencarnado em acidente de automóvel.

Outro dia, na saída de um velório, o amigo Adão Lago Pinto me falou:

– Você fala sobre a morte com naturalidade.

O cineasta Paulo Nascimento, de Porto Alegre, disse à imprensa que o ator Walmor Chagas tratava a morte com muita naturalidade. O Canal Globo News reproduziu entrevista do Walmor poucas horas depois da notícia de que o artista de teatro, cinema e televisão tinha sido encontrado morto em seu sítio no interior paulista. Acompanhei a entrevista dada em outubro de 2011, na qual o ator de 82 anos revelava inconformidade com o afastamento dos palcos, onde o aplauso coroava suas magistrais interpretações. Antes aplausos incessantes, agora a monotonia de um sítio.

Lá pelas tantas, indagado sobre o destino inevitável de todos nós, Walmor Chagas respondeu mais ou menos assim:

– Não temo a morte. Acredito que depois da vida agitada em que estamos, entraremos em um mundo de muita paz.

Tudo indica que no instante da resposta veio à mente do Walmor a tradicional expressão latina que, ao longo dos séculos, constou de lápides tumulares em cemitérios de incontáveis cidades terrenas:

– Requiescat in pace

Na verdade, o sincero desejo de “descanse em paz” não encontra respaldo na vida espiritual. O Espírito André Luiz conta que no outro lado da vida quem almeja paz precisa trabalhar para obtê-la, não há descanso eterno. Nada mais oportuno, pois, que se pesquise sobre o tema com a seriedade que se impõe, sob pena de amargas decepções futuras. Sim, há espíritos que se debatem por longo tempo em busca inútil de cenas paradisíacas, com as quais sempre sonharam durante a permanência no planeta.

A FRASE DO CHICO XAVIER, sugerida por José Carlos Monteiro Bogo – A alma corajosa não é aquela que se dispõe a revidar o golpe recebido, e sim aquela que sabe desculpar e esquecer.