3D no Rolador

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Quem disse que no município do Rolador não tem cinema 3D? Tem! E dos bons! Pois conto-lhes como foi a estreia do filme Titanic 3D entre São Luiz Gonzaga e Cerro Largo. A primeira diferença é que o filme não chegou através de um HD (hard disk – disco rígido), mas veio de trem. Trinta e oito quilos de filmes distribuídos em latas amarradas com cintas de couro. Um peso morto! Para não afastar-se muito da temática do filme.

Quando a Maria Fumaça apitou na curva, um bando de mascarados saiu a galope atrás do trem, provindos da Serrinha do Rosário. Quem disse que ali não tem ginete, gaúcho da mais fina cepa. Munidos de laços, carneadeira e revólveres, se vieram na maior confusão e gritaria no rabo do bicho resfolegante que emitia longas volutas de fumaça negra. O maquinista acionou o apito e acelerou ao perceber o perigo, de forma que a centopéia de aço que trazia o filme, sacudiu, rangendo nos trilhos como uma besta enlouquecida à 40 por hora. Um balaço furou uma das latas.

Eram vinte horas do sábado quando as cidades próximas viram longas luzes cortando o céu escuro, provindas do Rolador. Eram holofotes potentes que avisavam daquela inusitada estreia fílmica na região das Missões. Três cepos missioneiros estavam lá, camuflados. Um sino soou longe anunciando os novos tempos. Um galo cantou! O povo chegou. Os automóveis 29, Ford de bigode, foram estacionando. As aranhas, os carros de bois, as montarias…

No cinema, as filas saiam do perímetro da cidade. Um vendedor de milho verde substituía o pipoqueiro, que se perdeu no oco do mundo. Os “ocres” eram distribuídos junto aos ingressos que constituíam-se de míni-bóias. Tudo estava de acordo para celebrar os 100 anos do “merguio”. Inclusive, o dono do cinema, muito do profissional, disponibilizou uma grande mesa onde oferecia pedras de gelo em formato de iceberg e vendia a quem quisesse se refrescar e lamber. Um cidadão, precavido, levou o seu próprio óculos. Ele é soldador. Sabe como é, o seguro morreu de velho.

O João das Rodas estava feliz. Junto da namorada iria para a estreia de um filme 3D que nunca havia visto. Sua companheira, culta, pois já havia lido alguma coisa sobre a história do Titanic, comparecia de botas de borracha, pretas, aquelas pantaneiras que vão até a cintura, um colete salva-vidas vermelho e um snorkel verde. Estava uma gracinha!

Tão logo o urubu voou lá do morro – Lembram a abertura da Paramount? – já as coisas começaram a se definir. Vistos da frente da tela era uma multidão de quatro olhos espelhados bisoiando com caras de abestados. Menos o João… Enquanto o povo murmurava surpreso com as sequências das cenas quase reais que lembravam a estreia da chegada do trem, lá em Paris, na noite memorável da estréia mundial do cinema, em 1895, o João tirava e colocava os ócres sem parar. Alguma coisa estava errada! Certamente queles ocres estavam com defeito, ele não percebia a mínima diferença, com ou sem. Só faltou ele arrancar o olho direito, de vidro, e colocar em cima do ocre. Um verdadeiro tri-zóio ou ciclope. O que não contaram para o João foi que a tridimensionalidade é uma ilusão, um fenômeno natural chamado esterescopia. O cérebro funde as duas imagens captadas por cada olho em apenas uma, obtendo a sensação da tri dimensão. No caso do João, tendo apenas um olho, o processo era irreversível, não podia ver em 3D.

No fim do filme, todos estavam maravilhados com o espetáculo, menos o João. Furibundo foi até o gerente querendo que lhe devolvesse meio ingresso pois tudo o que vira não passou da bidimensionalidade. Os ocres, para ele, eram objeto supérfluo, desnecessário, uma tralha sem utilidade. De nada adiantou ele botar e tirar os ocres, botar e tirar a bolita de vidro do oco direito, pois o que realmente e somente funcionava era o zóio esquerdo que escapou de um acidente alhures.

A única coisa que o povo não entendeu é quem fez aquela tremenda racha no casco do navio. De repente o Titanic já estava rachado, fazendo água. Como??? Pois foi ai, nesta parte, que o balaço tirou um pedaço da película, arrancando o iceberg do filme.

Assim podemos dizer que a estréia do Titanic 3D, no Rolador, constituiu-se de estrondoso sucesso, menos para o João. Agora está em cartaz “Os Vingadores”, também em 3D. Mas o João só fala em pescaria. Não quer saber de cinema! Ao menos com os peixes ele não confunde. Mesmo que sua visão o embaraçasse no quesito profundidade, distância, posição e tamanho, ele tem apurado o olfato. Unindo um com o outro ele é preciso.