A chave

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 A chave era mínima, do tamanho de uma unha. Dourada, com dentes bem delineados em tamanhos diferentes, obviamente guardando o código para a abertura do segredo. Mas, qual segredo abria a chave? Esse o grande desafio! Doce mistério imaginar qual tesouro aquela pequenina chave tinha o poder de abrir.

E ela falava, falava… gesticulando a todo o momento, e sorrindo. Um sorriso encantador em lábios vermelhos, cobertos de batom. Não estou falando da chave e sim da dona da chave que a portava ao pescoço. Aquele contraste de pele morena com o dourado da pequena corrente e da chave, encantava.

Conversava com ela mas não conseguia tirar o olhar daquele pequeno objeto que, em realidade, era apenas a simbologia de algo permissível, de algo acessível, de algo imaginável. A chave, fisicamente não tinha o poder de abrir nada material, no entanto, abria mil possibilidades, fantasias tantas, imaginações sem nenhuma restrição. E pensava, como um pequeno detalhe desse pode simbolizar tanto? Aquela chavezinha tinha poder de abrir comportas, de destravar cofres bancários, de abrir carros fortes, e mais… escancarava minha imaginação.

Existem chaves tantas e de vários formatos, algumas enormes, pesadas, típicas da Idade Média onde giravam com dificuldade para abrir portas medievais. Outras, igualmente pesadas, abriam portas de cemitérios, baús enferrujados, celas úmidas em catacumbas escondidas. Chaves existem das cidades, simbolicamente entregues a reis momos, ou outras autoridades quando destacadas temporariamente. Existe a chave do tamanho, a chave do pensamento, a chave da tranqueira, e por ai vai… Lembro de um filme onde o rei retornando de uma cruzada guerreira visualizou seu palácio. Um sorriso lhe aflorou aos lábios e retirou de um bornal uma pequena chave que era do cinto de castidade da rainha. Seu sorriso caiu tão depressa quanto a chave quando o cavalo tropicou e a chave caiu em meio à areia que circundava o castelo. Em vão foi o rei cavar, dar ordens aos seus comandados para ajudá-lo a procurar a bendita chave. Ela sumiu. Escafedeu em meio aquele Saara de areia. O rei voltou a pé, nem quis montar, tamanha sua decepção. Nem imaginava que o cadeado (aquele) estava gasto pelo uso. Alguém, muito próximo, confeccionou outra chave tão logo o rei saiu em campanha.

Essa pequena chave, na correntinha e no pescoço em voga, é mágica. Canaliza e imanta meu olhar na fantasia de tudo ver, do tudo a ver, do ainda não revelado, das mil e uma noites das possibilidades. O olhar matreiro, iluminado de sua dona é condimento à fantasia. A quem ela oferecerá a chave? Alguém será digno de abrir as portas e janelas de sua alma? Haverá um destinatário ou será um mero, intrigante e indefinido oferecimento?

Na vida há vários portais, alguns físicos, outros espirituais. Algumas dessas portas são dimensionais; algumas abrem, outras, não mais. Algumas portas abrem à vida, outras, a morte. Algumas ligam o tempo a diferentes realidades. Algumas dão acesso a antigas cidades. Algumas estão abertas à liberdade do ir, outras, cerram, prendendo como correntes férreas a vontade de não ficar.

As chaves antigas tinham modelos Gorje (simples), evoluíram para tetra (quatro lados), e agora estão codificadas, como as dos automóveis. Hoje, a maioria das chaves transformaram-se em senhas. São as chaves eletrônicas, tecnológicas, típicas dessa era. Uma senha é uma chave. Letras e números em combinações quase impossíveis de serem decifradas. Um cartão magnético é uma chave. Mas, como o “amigo” do rei da historinha atrás, sempre há hackers que tudo vasculham, tudo descobrem, invadindo individualidades.

A chave que me encanta e inquieta… encanta e inquieta porque insinua sem revelar, é uma chavinha pequena, um pequeno pingente que teoricamente tem a única função de adorno. Em minha visão revela sem revelar como uma típica chave de imaginação. Ninguém me ofereceu, não foi indicada nem sugerida, portanto longe estou de a possuir e aos seus segredos, mas fico no mundo do sonho, tal qual criança, ou mesmo saboreando uma aventura com Dom Quixote, embebido de imaginação e literatura. E a chave de 2012? Quais segredos abrirá?