Assombração

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 – Castro, cuidado com essa vela! Há pouco quase apagou! – Disse ao companheiro ao mesmo tempo que protegia com a outra mão, a minha chama.

– Estou cuidando! Mas senti um bafo, como se alguém a assoprasse. Posso jurar que alguém a assoprou tentando apagá-la. Estou a fim de azular daqui. Sinto um estranho calafrio, como se alguém nos vigiasse, como se alguém estivesse ao meu lado, tentando nos surpreender no escuro.

– Bobagem! Vamos em frente! Se ao menos tivéssemos lanternas.

Eu e o Castro estávamos em empreitada noturna. Em realidade, era madrugada. Nesse dia nos aventuramos em busca de um suposto tesouro naquelas ruínas missioneiras. Todos os indícios nos levavam àquele compartimento de grossas paredes cujas pedras ainda elevavam as paredes metro, metro e meio. No chão, em um canto, uma profunda depressão nos assinalava o possível ponto onde estaria escondido um tesouro jesuítico-guarani. Quem manda não estudar? Burro, ignorante, tem mesmo que acreditar em tesouros enterrados, no ouro inexistente nessas paragens. Bastava algumas aulas com o professor Mário Simon para compreender que o único “ouro” encontrado aqui foi o ferro da pedra itacuru, extraído pelo Padre Antônio Sepp.

A cobiça, aliada à coragem, nos tornava aventureiros, em Indiana Jones das Missões desafiando o sobrenatural. Sim! O que vimos e ouvimos era de dar medo, mas nós eramos machos, gaúchos herdeiros da têmpera guerreira de nossos ancestrais, e não importamos com os avisos de assombração. Uma coruja voou, piando lubricamente.

Logo, ouvimos uma voz sumida, mas inteligível:

– “Quem quer meu ouro? Quem quer meu tesouro? É cristão ou é mouro? É boiola ou é touro? Aqui quem não dança eu castro”!
O pobre do Castro tropicou, engoliu em seco e pigarreou. Queria falar comigo mas sua voz sumira. Com seus olhos desmensuradamente abertos olhava para mim e para a porta ou o que restava da passagem aberta. Tive que detê-lo com um gesto, ao mesmo tempo que lhe pedia calma. E fui perguntando com a maior intimidade, tentando disfarçar o meu medo:

– Quem está ai? É homem ou mulher? É alma desse mundo ou do outro?

– “Do ouuuuuuutro… Sou cruza de lobisomem com lobo guará, e quero lhes pegá”.

Nesse momento o Castro jogou a vela e tomou o rumo do norte, sumindo na escuridão. A ele qualquer lugar era mais seguro que ali, não ficou para negociar o tesouro com aquela alma penada. Deixou a incumbência para mim. Ao passar pela porta enroscou-se em uma rede de teia de aranhas, causando-lhe forte perturbação sensorial, tirando a tapas as teias que antes não estavam ali. Gritou um “A la pucha”, e saiu tastavelhando no breu.

Olhei para a minha chama – trepidava indecisa, bruxuleante. Olhei para meu 44, quieto, na cintura. A mão direita, suava… resolvi desafiar a assombração. Nesse momento algo moveu-se saindo do buraco e veio em minha direção. Pulei da coisa que não era mais que um tatu saindo da toca. A la fresca, quase lhe passo a faca, o golpe passou perto.

– Pois olha, tchê – disse para a assombração – eu estou acostumado a pelear com o gasparzinho. Não tenho medo de você! Se for lobisomem ou lobo, não me importo… eu pelo e tiro o couro. Essa prateada é própria para fantasmas, assombração e almas do outro mundo. Te apresente, vivente!

– “Eu não sou vivente! Sou morrente!”

– Não me importa a tua situação, pois sei que és guardião desse tesouro. O que tu queres para me permitir pegá-lo? Qual o teu preço?

– Coração!

– Ah! queres oração? Padre-Nosso, Ave-Maria?…

– Não, seu besta, quero o seu coração!

– Tu acaso apaixonou por mim, estas enamorada desse taura, desse gaúcho?

– Não, seu besta, quero comer seu coração!

– Barbaridade! – disse ao meu turno, e sai porta a fora. Sou corajoso mas não sou otário. Vai que essa assombração esteja falando a verdade… E me bandeei para Santo Ângelo.