Cadê a Catedral?

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Calma! Calma! Não se trata de nenhum sequestro. Não há necessidade de chamar a polícia nem investigadores. Ela continua em seu lugar, majestosa como nunca. Deixem-me explicar: o sumiço da Catedral dá-se apenas de alguns lugares da cidade. E a razão de não ser mais vista é pela presença maciça da construção civil que faz brotar prédios altos, de uma hora para outra.

Trabalhando há duas décadas no prédio da extinta C.E.E. tínhamos do 3º piso, a bela vista da Catedral. Agora, mês a mês, foi sumindo. Um prédio em construção nos tira a visada. E creio que essa situação repita-se de outros ângulos da cidade. É o preço do progresso! É a cidade que cresce para o alto. Ficamos saudosistas por um lado… A paisagem muda e leva nossas referências. Por outro lado, o progresso mostra a sua cara com prédios modernos, vestindo de novo o panorama da Capital das Missões.

Basta pensar para entendermos que o tempo é o grande agente transformador. Nada resiste a ele! Tudo passa! Tudo muda! E a cidade vai, em ritmo acelerado, se vestindo de concreto e vidro. Uma nova apresentação visual de modernidade e progresso.

Então, nos perguntamos: cadê a torre da Igreja do Relógio? Cadê a Catedral com suas torres imponentes? Claro! Continuam onde sempre estiveram, apenas fora da visão que tínhamos em determinadas localizações. Uma cidade é como um ente vivo, muda pelas mãos dos homens. Como diz o boneco Buzz Lightyear, do desenho Toy Story: “Ao infinito… e além”.

Imaginemos como será Santo Ângelo daqui a 100 anos… Crescerá para os lados, certamente. Mas o centro projetar-se-á para o alto. Na Arca do Tempo – Projeto da Academia Santo-angelense de Letras – estão “enterradas” ali no Centro Municipal de Cultura, mensagens para serem abertas no ano de 2043, quando a Asle completará 50 anos. Uma das questões que foram perguntadas era como as pessoas imaginariam a cidade nesse futuro.

Em cidades antigas – e aqui há um paradoxo, a cidade quanto mais antiga, invariavelmente é moderna – os prédios históricos como catedrais góticas, medievais, normalmente são engolidos por edifícios altos que crescem ao derredor. Ficam ilhados pelo concreto vertical. São como um oásis arquitetônico em meio a profusão de arranha-céus, em sua volta. E resistem ao tempo! A Europa, a Ásia e outros continentes apresentam cidades com esses aspectos, engaiolando o antigo, porém, sem destruí-lo.

Voltando! Há nisso tudo um outro aspecto referente à palavra “cadê”. Onde está o prédio maravilhoso do Cine Teatro Municipal, que exibia no alto uma película enrolada em uma bobina de filme? Onde está a casa onde o Prestes morou? A antiga Telefônica na Rua 3 de outubro com a Antunes Ribas? Onde está o Hospital Gatz? Esses são questionamentos que não precisariam ser feitos caso os responsáveis públicos e particulares tivessem outra visão do que é um prédio histórico e a importância que os mesmos detém para a memória da cidade. Esses, sim, de-sa-pa-re-ce-ram.

Enfim, existe um Patrimônio Cultural Imaterial, que não pode ser olvidado. Muito mais que pedra, estão as ideias. Muito mais que arquitetura, está o sonho que materializou-se. Atrás de toda obra, seja material ou não, estão a mão e o coração do homem. E, embora o Memorial da Coluna Prestes não seja obra tão expressiva das tantas geniais do Oscar Niemeyer, é fruto desse gênio da arquitetura, e aqui está para orgulho dos santo-angelenses. O Patrimônio Imaterial superando o material.

Disso tudo tenho apenas uma certeza, os prédios poderão mudar, a cidade se transformará, mas ela, a nossa Catedral, estará lá no futuro tão bela quanto hoje. Em 300 anos tivemos naquele lugar três diferentes igrejas. Esperamos que daqui a 1.000 anos a Catedral ainda esteja ali, magnífica em suas linhas arquitetônicas, com o Anjo da Guarda protegendo nosso povo. E que o escultor Valentin Von Adamovich também não seja esquecido.

– Mas, cadê a Catedral?

– Está em frente à Praça Pinheiro Machado. Teimosa, virada para o Sul.