Cenas do passado

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 A realidade é verossímil o suficiente para negarmos alguns flaches que nos vem assim, de inopino. Quando menos esperamos surge à tela mental algumas imagens de alhures, com intensidade real, cheiro, vozes e a emoção de as ter vivido. São as janelas psíquicas através das quais escapam, de vez em quando, em momentos especiais, cenas do passado, nos assustando com a certeza que aquilo que vemos, vivemos. Aquilo é nosso, sem contestação, no entanto, são vivencias de outras épocas que estavam esquecidas, adormecidas em algum porão interno de nosso psiquismo.

Ver uma pessoa pela primeira vez e achar que a conhece há séculos, ter a intima certeza que ela não é uma ilustre desconhecida, é prova de vivencia anterior. Ter aversão a pessoa que nada nos fez, é prova de vivencia anterior… nada nos fez, agora! Divaldo Franco, o médium baiano, diz: “É o que a psicologia chama déjà vu, déjà senti ou déjà reconté. O já visto, já ouvido, já sentido”. Assim, montando peça por peça, vamos conhecendo parte da constituição que nos remetem a um dilatado tempo, bem superior aquele da presente vivencia que conta com algumas décadas. As informações, lembranças ou tendências que nos acompanham são muito complexas para serem concebidas apenas neste tempo presente. Somos passageiros temporais com passado e futuro a perder de vista. Nossa experiência não cabe em nenhum calendário físico, pois dobra-se nas franjas do tempo mergulhando na imensidão dos séculos.

O que somos hoje é o resultado das lutas e trabalhos do ontem, da mesma forma que seremos amanhã a consequência daquilo que construirmos hoje. Portanto, arrume a cama que irás dormir! Prepare os farnéis para a viagem! Tenha lume, mapa, estratégia e perspectiva… Além de tudo, seja otimista e sonhe.
Há alguns sonhos que se repetem em nossas noites, como duro martelo tentando nos lembrar de algo que, de alguma forma tem a ver com o presente. É uma forma de nos alertar para algo. Interpretar esse algo é outro departamento, mas temos certeza que nada é em vão, como o simples voar das folhas do passado têm a real intenção de conectividade com o presente.
Se pudéssemos olhar para nossa mãe, pai ou filho e vê-los além do tempo, nos surpreenderíamos das diversas vezes que vivemos em tempos distintos. Ali estavam eles ao nosso lado, não necessariamente na mesma posição de agora, mas presentes, construindo junto uma vivencia de confiança e amor. Até poderia ter algum desvio nos relacionamentos, mas, para ser família, para ter consanguinidade, temos certeza que o amor superou qualquer outro sentimento.

Nosso mundo já foi apenas uma casca de ovo. Mensurável, de fácil acesso e fácil compreensão. Então, sequer sonhávamos que após a casca tinha outro mundo, e mais outro, e mais outro, que iríamos gradativamente nos assenhorando ao romper as barreiras. Quanto ao ovo das mínimas possibilidades e dos sonhos contados, não nos dávamos à divagações, as possibilidades do novo, do inimaginado, pois o provável era tão somente uma palavra sem sentido. O tempo passou, as cascas foram quebrando uma a uma… Percebemos assombrados que as camadas dos mundos que rompíamos eram como camadas de cebolas, sempre maiores, sempre surpreendentes, sempre desafiadoras…
Viajar ao passado e resgatar cenas pode ser doloroso, como também agradável. Depende do foco, da situação. Essas cenas guardadas, muitas vezes esquecidas, são tijolos importantes na base da construção do hoje. Ajudam a entender certas coisas, e não deixam de serem detonadoras psíquicas. Não estou me referindo, nem sugerindo, a regressões assistidas por profissional, mas as regressões acessíveis em nossa mente e nas nossas lembranças de um modo natural.

A pessoa com quem tratas agora, e crês, um novo e surpreendente valor em tua biblioteca sentimental, nada mais é que o amor sofrido, batalhado, aquisição conquistada em outro tempo, que se apresenta com nova vestimenta. Creia, apenas a casca é nova, o perfume é o mesmo. Escute a voz de tua alma, e a identificarás. Perceba que as fibras de teu ser vibram à simples menção de seu nome… Prescrute seu coração… mergulhe em seu olhar… e terás grata surpresa! O amor pode vestir-se com mil fantasias, mas a essência, é a mesma, e única.