Com que roupa?

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Fico impressionado com as atitudes humanas. E isso não é nenhuma condenação, de certo ou errado, mas antes uma constatação da diversidade de gostos e tendências. Claro fica a existência do diferente. Embora todos tenhamos o mesmo princípio e, em essência, o mesmo teor, é inconteste o entendimento diferenciado da vida em seus infinitos meandros.
Pois estava pintando letras apagadas – o tempo, esse engolidor das formas – em cemitério próximo, pois o dia de finados aproxima-se, quando, percebo próximo um jazigo, uma capelinha recém construída e que não estava ali. Surpreendeu-me não o projeto arquitetônico, o fato de ser inteiramente coberta de mármore, mas por ter toda a frente de vidro com uma grade de ferro protegendo, e dentro… Um museu!

Fui ver!

Dentro, o vivente – quer dizer – o de cujos, exibia cinquenta e poucos troféus dispostos em prateleiras e em cima da lápide. Lindos troféus por ele conquistados em vários certames tradicionalistas. 1ºs, 2ºs, 3ºs lugares. Enfim, uma história de superação em torneios e eventos diversos por toda a região. Mais… sob a lápide, o chapéu campeiro e as esporas.
Para mim aquilo foi uma surpresa. Não o fato daquele gaúcho ter sido um vencedor, mas pelo fato de levar junto seus troféus na representação de suas vitórias. Aquilo tudo fechado atrás das grades e dos vidros sob a inclemência do sol diário… não poderá durar muito! E afinal, foi sua vontade ou a vontade da família levar a materialização das vitórias campeiras para o jazigo familiar onde ele é precursor? Custa-me acreditar ou entender essa vontade sabendo que nada daquilo ira junto. Nem os troféus, os títulos, o chapéu, as esporas… absolutamente nada!

Isso tudo fez lembrar-me dos egípcios que levavam para suas tumbas os seus mais queridos e ricos pertences. Isso quando não levavam os seus escravos que teriam que morrer juntos, em um ritual maligno já que seus escravos, jovens, gozavam de saúde e vitalidade… para serví-lo no além.

Há locais extremamente pobres em que os viajantes são levados em sua última viagem apenas envoltos em um lençol. Em outras situações de extrema maldade, em meio de intrigas, poder e ódio, os desafetos eram e são simplesmente emparedados. Na Índia, por exemplo, e por um entendimento de fé, os viajantes são consumidos em uma fogueira. Na Idade Média, e na Inquisição, eram também queimados… porém, vivos!

O ser humano é surpreendente e de pouco valeu a evolução da sabedoria, do conhecimento, que separa as coisas em seus devidos lugares. Uns entendem, outros não.
Tenho bem próximo um exemplo semelhante. Uma colega, solteira, festeira, nos deixou uma espécie de testamento, um pedido. Quando morrer quer que adquiramos uma geladeira usada. Quer ser “enterrada” dentro da mesma, tapada de garrafas de cerveja, só com o rosto de fora. Brincamos com ela, se prefere marcas ou se contenta com qualquer cerveja… e se irá gostar das cervejas quentes. Ela pouco importa dos detalhes, apenas afirma que as quer cheias, e isso é seu desejo.

Constato historicamente quando os judeus foram, às centenas, enterrados nus em valas comuns. E não só os judeus mas tantas outras etnias minoritárias, que ao sabor da guerra ou da tirania do poder vigente, partiram como vieram, despojados de tudo, até de suas dignidades. Diverso são aqueles que, ostentando poder terreno, são levados à terra envoltos em púrpura, jóias e requintes de adereços e considerações que, afinal, acaba-se sempre ao se fechar para a luz. Tudo é ilusão! Nada mais que ilusão! Que interessa a forma, a vasilha, os detalhes, se a verdade não se mede com medidas físicas.

O ser humano é uma piada! E constato fazer parte dessa tragicomédia. Luz! Quero luz! Entendimento, humildade, olhos que vejam, ouvido que ouçam e despreendimento para entender o incompreensível. Quantas vezes teremos que repetir as lições? Quando deixaremos de ser uma piada humana para, enfim, adentrarmos na maturidade.
O Mestre continua há dois mil anos pacientemente ensinando e repetindo os ensinamentos libertadores; quanto nós, alunos relapsos, continuamos a dar vazão às fantasias e a nos prender nas formas.