Do tacape à emoção da despedida

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No princípio o instinto do macho só tinha uma mão, uma via… a da vitória! Jamais admitia perder quando a vontade se impunha soberana no desejo material de possuir. E para possuir, se necessário, a borduna funcionava, os dentes, as armas, a emoção enraivecida ao se ver rejeitado. Aquela em mira, em foco, a sua conquista era uma questão de suor, de pancadaria, de estresse, de explosão. Para tanto perseguia, feria, arrastando pelos cabelos e tomando à força o que o desejo intenso e absolutamente egoísta exigia. Nem de longe pensar que ela também tinha desejos, emoções, sentimentos. A ele, tudo! A ela, nada! Apenas interessava naquela hora da carência. Isso era o amor em priscas eras. Essa era a forma da conquista. O poder físico total, sem a mínima possibilidade de dividir, de vibrar na mesma sintonia, de ter para o outro a consideração devida.

Hoje, as mulheres saíram da caverna. Em realidade, já há bom tempo. Milenarmente submissas, se impõem. De caça, transformam-se em caçadoras. Porém, muito mais sutis não empregam bordunas, tacapes, armas físicas. Impõem-se por armas imponderáveis, invisíveis, devassadoras. Fazem dos sentimentos e seus meandros a teia que jogam nos despreparados afins, enredando-os em silenciosa agonia. As mulheres, hoje, superam os homens em estratégia e em poder, no campo sentimental.

Gênero comprovadamente mais forte, com maior versatilidade e resistência emocional, dá o troco quando ferida, age de forma que seu próprio silêncio seja uma arma contundente. Os carentes agora não são elas, são eles. Um jogo de amor que através dos milênios muda formas, conceitos e fins.

Nessa arena enorme ainda lutam desapercebidamente iludidos os machos do passado, crentes que dominam ainda, presos a um poder ilusório que, a bem da verdade, os torna meros palhaços. A pior coisa é ser um palhaço para os outros e não perceber pelo simples fato que você não ostenta um nariz vermelho, uma cara pintada, uma peruca colorida… não, você está de terno, alinhado, impecável… impecável palhaço que não percebe o ridículo da situação. Não saber perder! Desejar ser amado à força torna-nos, muitas vezes, em tiranos cruéis. Quem não sabe renunciar, coração incapaz de ceder em benefício da felicidade alheia é semente seca que não produz.

O guerreiro que antes era inflexível, inatingível, alheio a sentimentalismos baratos, hoje percebe-se chorando, machucado ao extremo ao perceber-se expulso de um coração feminino. Aquele que jamais chorou, sensibiliza-se à lágrimas verdadeiras. Sente o coração balançar ao lembrar aquela, razão de sua razão. Ele que jamais chorou, guerreiro acima de qualquer tortura física desmancha-se pela mulher que ama e preferiria enfrentar dragões fumegantes, leões famintos, serpentes traiçoeiras a enfrentar um não daquela que torna-se meio e fim, razão extremada de sua vida.
Muitos há que juram jamais ter se apaixonado. Em conquistas inúmeras jamais chegam a admitir submissão emocional, entrega total… eis uma geração perdida no tempo, iludida com os novos rumos do sentimento humano, no caso, do sentimento masculino. Há uma nova postura, e ela diz: Guardem as armaduras. As armas, dependurem definitivamente. Ódios, rancores, vinganças, são fugidios resquícios do passado que devem ser apagados da personalidade. Para vencê-las, para conquistá-las, outras armas deverão ser empunhadas, estas, confeccionadas pelo coração, forjadas pelos melhores pensamentos. Vivam o que a vida permite em seus inefáveis encantamentos. Para cada rio turbulento ou evento amargo, construam pontes, sólidas ou imponderáveis, mas suficientes para atravessá-las e continuar o caminho. Permitam-se construir ao lado da amada, não muralhas, nem imensos castelos de pedras frias, mas a gentileza de simples atos que provem a admiração e o amor incondicional, e ajam não como donos, pois ninguém é de ninguém, mas como simples admiradores que oferecem flores.

O homem de hoje guarda o tacape da prepotência e aceita a despedida. Sabe, o que realmente importa, o que realmente fica é a emoção da verdade. Saber aceitar a despedida é entender que a vida é um eterno ciclo, o que não pode ser feito ou aceito hoje o será amanhã quando o coração eleito vibrar na mesma nota e finalmente entender o que hoje não compreende. A despedida sem ódio, sem rancor, é estratégia de um novo tempo. Afinal, somos todos iguais em nossas inúmeras diferenças.