Dona Flor

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“Perder-se de si mesmo é a pior perda que podemos ter”

Dona Flor perdeu o rumo de casa, não apenas da casa física mas, principalmente, da casa mental. O excesso de bebida e quem sabe de outras drogas contribuíram para essa situação deprimente, contrária à dignidade do ser humano. Dona Flor perambula pelo centro de Santo Ângelo procurando algo que jamais vai achar. Seu tempo agora é outro. Aquele, dos dois maridos ou companheiros, passou. Lembro quando na companhia de dois homens formavam um trio do barulho, de desafios, porres e pancadaria. Ela baixava o braço valendo, dava e levava. O trio convivia pelas praças, pelas ruas, catando papelão e outras coisas descartadas pela sociedade. Entre tapas e beijos, entre empurrões, xingamentos e uma garrafa de aguardente, eles conviviam desarmonicamente, mas, inseparáveis.

Um dos homens morreu! Outro sumiu! Ela ficou só! Pobre Dona Flor que encontro nas manhãs frias da cidade, perambulando pelas ruas em busca de endereço inexistente, tiritando de frio. Coberta com roupas doadas, muitas vezes destoando de seu manequim. Mulher solitária e sem rumo que vive em delírio, em sua fantasia, tentando encontrar o que está irremediavelmente perdido. Perder-se de si mesmo é a pior perda que podemos ter. Nessa situação não há passado, não há futuro, apenas a obsessiva vontade de caminhar, de ir daqui para ali, e voltar, como um pêndulo iludido em seu caminhar que vai do nada para lugar algum.

Dona Flor perdeu-se em alguma esquina do passado. Não sei de onde veio mas sei para onde irá. Como todos nós que também iremos. No entanto, nós, os comuns, temos consciência do caminho, temos referências e mapas, cantis e farnéis. Ela não! Ela é um barco sem leme, totalmente ao sabor das ondas, sujeita às correntes marinhas que a levam ao seu bel prazer. Suas velas estão rasgadas e não mais aproveita a força dos ventos. O próprio timão de sua vida já não maneja, deixando a Deus dará. Como deve ser triste essa navegação solitária, desprovida de objetivos?!

Dona Flor é uma pessoa comum, uma mulher. Abandonada em nosso meio. Isso nos fere profundamente ao percebermos que somos todos partes da grande família universal. Diversas vezes vi Dona Flor jogada ao chão, surfando em seu delírio. Gritava alto e emitia palavrões, não aos transeuntes, mas aos fantasmas de sua mente. Os que passavam, uns riam, outros viravam a cara, como se ela fosse feita de outro barro. Quem desejaria, de sã consciência, viver uma situação extrema como essa? Pobre Dona Flor que enjeita ajuda, que foge do abrigo onde pessoas comprometidas socialmente a recebem, agasalham, alimentam, dando-lhe carinho…

Dona Flor tem o cabelo desgrenhado, duro, sujo, desajeitado. As vezes anda semi nua, como se a vergonha fosse um componente perdido, tanto quanto ela. Ela agita e bate, grita e sacode. Estertora na demência escandalizando concidadãos com seus surtos de nenhuma lucidez. Chama a atenção melindrando anônimos corações. Dona Flor já não tem marido. Foram-se todos, assim como seus mais queridos sonhos. Ela esta desquitada da vida, dos compromissos, das convenções. Era erra! Errar é caminhar sem fim na jornada, e essa, é doentia e esquizofrênica.

Dona Flor já tomou homéricos porres. Antes, compartilhados. Hoje, bebe solitária, na inconsciência de alguém que não quer mais chegar. Partir ou chegar são palavras sem significado, chover ou fazer sol. Frio ou calor são também conceitos esquecidos, de alguém que perdeu a noção do significante, recebendo-os sem identificar.

Madrugada fria na Três de Outubro, quase esquina com a Marechal Floriano. Ela divide as lixeiras com cães e gatos. Ela procura não apenas algum alimento descartado, mas a sua própria identidade. Quem sabe não se surpreenda no monturo, nos dejetos? Quem lhe garante o que pode encontrar ali, já que sua fantasia transcende aquilo que é normal. No frio, tem que beber! No calor, tem que beber! E bebe o resto de sua dignidade em sofríveis goles alcoólicos, escandalosos para nós outros, mas essenciais para ela. Quem sentir-se ofendido atire a primeira pedra. Dona Flor perdeu os maridos. Dona Flor é uma andarilha pelas ruas da Capital Missioneira procurando pelas esquinas a pessoa que se perdeu dentro dela.