Estrangeiros em seu próprio país

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Todos nós, de uma forma ou de outra, sofremos com alguma deficiência que trouxemos biologicamente ou que adquirimos na estrada do viver. Essas experiências podem ser comportamentais, psicológicas, morais ou físicas. Tenham elas o escopo que tiverem, nada há de tão acerba quanto a cegueira, principalmente para o surdo-cego. Essa é a mais terrível deficiência que faz com que essas pessoas estejam no mundo sem estar. Apenas o tato é o cordão que as ligam à realidade. Porém, hoje, o enfoque vai para o surdo, que não obrigatoriamente pode ser mudo.

No passado, fosse na Idade Média ou mais recuado no tempo, as pessoas que trouxessem qualquer deficiência física eram sumariamente postas à margem, vilipendiadas, ridicularizadas, perseguidas e machucadas em suas essências, como se eles pertencessem a outra classe de seres humanos. A ignorância das leis divinas era tanta que, seguidamente eram torturados, presos, abandonados na periferia da sociedade de então. Que dor deveriam sentir… mais que feridos no físico, eram feridos na alma, rejeitados até por aqueles que lhes dividiam o lar. Essa situação aos poucos foi melhorando com o entendimento, com o progresso moral da sociedade, com o entendimento de Leis sublimes que nos faz, perante ao Criador, todos iguais, sem nenhuma vantagem uns perante aos outros.

Mesmo na atualidade, nesse princípio de 3º milênio, muito ainda há para conquistar, para compreender. Grande salto foi dado, sem sombra de dúvida, mas ainda há barreiras, as mais diversas, permitindo um cenário ainda não ideal para a livre manifestação e aceitação do diferente. Mas, como tudo na vida, anda-se sempre, lentamente, na senda do progresso e da evolução. Prova disso é a medicina, que a cada dia descobre soluções de saúde, elevando o bem-estar e o viver.

Os surdos-mudos são cidadãos praticamente estrangeiros em suas próprias pátrias. Aqueles aptos à comunicação, os detentores de Libras, são infinitamente poucos. O universo humano por onde navegam é imensa barreira quando se trata de comunicação. Quem não os entendem, não procuram entender, a não ser que pertençam à sua família ou sejam seus amigos, predispondo-se, então, a adquirir meios para melhor entendimento.

Os surdos-mudos são pessoas normais, apenas com deficiência em seus meios de comunicação. Percebemos, no entanto, que a vida ou a Inteligência Maior, que gerencia o viver, beneficia a falta de algo com outro algo mais, podendo ser a exponenciação de outro dom, físico ou moral.

Basta breve exercício de imaginação, colocando-nos em seu lugar, para entendermos a profunda dificuldade ao longo de seus dias em suas relações de comunicações. É prova difícil para a qual, nos outros, deveremos ter a gentileza, a paciência e a fraternidade de agirmos com cidadania, vendo em todos os deficientes – quaisquer que sejam – o irmão temporariamente investido daquela dificuldade. Ninguém está livre de recebê-la. Quando falo “temporariamente” estou me referindo a elevados conceitos morais espíritas que, agora, não vêm ao caso.

Qual pai, qual mãe, ao receber seus filhos, distinguira menos aquele que é surdo-mudo dos outros, ditos “normais”. Quem garante que o filho, ou a pessoa assim investida de alguma deficiência, não seja um anjo camuflado? E dizer que ainda há famílias que prendem seus filhos por vergonha da sua situação…

A humanidade dá provas, cada vez maiores, de maturidade moral. Ao respeitar, promover, incluir, e criar Leis que amparam e resguardam os interesses dos diferentes, mostra que compreende a grande lei do progresso que diz : é ajudando que se é ajudado, iluminando que se recebe a luz, e amando que se é amado.
– Quem é realmente deficiente? São as pessoas que possuem as deficiências? Ou as pessoas que não entendem a deficiência, sendo preconceituosos e agressivos?