Guima

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Em minha infância conheci um mudo que era muito popular na pequena cidade. Vivia em um galpão cedido por família, a cem metros de minha casa. Diariamente o via caminhando no tempo que se esquecera dele. Tinha um chapéu de feltro preto, surrado, que lhe caia pelos lados da cabeça. Já com idade avançada. Usava roupas velhas, rasgadas, e pés no chão. Ele cheirava mal quando estava perto, sinalizando a total falta de higiene. Mas era um pacato cidadão, em cujo olhar dava para perceber a inexistência de agressividade. Ele parecia conhecer os habitantes, pois cumprimentava a todos com um aceno da cabeça.

Em um domingo à tarde, na modorra do nada, peguei-o no jardim em frente comendo rosas. Com a sua calma de monge, pegava pétala por pétala e levava a boca, em um ritual de pura magia. Parecia deliciar-se com aquela iguaria perfumada. Minha mente infantil não entendia, nem poderia entender aquela atitude. Mas o comedor de rosas ficou gravado em minha memória, nas tardes longas e silenciosas dos domingos.

Chamavam-no de Guima! Um nome estranho, mas na época sequer tinha pretensões para devassar a alma humana, e seus estranhos comportamentos. De onde viera? Quem era ele? Creio que jamais terei as respostas, pois o tempo apagou qualquer rastro, levando as lembranças como folhas outonais. É impressionante como o diferente nos marca, como o surreal se torna verossímil. Como nos impressionamos com as coisas que não soubemos explicar, muito menos compreender.

O mudo era magérrimo. Certo dia de chuva, de muita chuva, através da vidraça o vi dançando dentro de uma poça de água barrenta. A rua era de terra, o calçamento ainda não tinha chegado. Ele pulava e dava uns passos para lá, uns passos para cá, ensaiando uma coreografia singular. Eu não escutava nada além do tamborilar dos pingos, do sussurro da chuva, mas ele, certamente tinha na alma o som de uma orquestra. E via em sua fisionomia traços de puro prazer. Não do prazer de uma criança, de um menino, mas de um ser que perdeu-se de si mesmo, e num átimo, parecia se encontrar sob a chuva.

Quando morria alguém, seu conhecido, ele chorava. E que triste era aquele choro sem voz. Parecia se engasgar na emoção, e a sua performasse na dor, calava fundo.

Quisera poder falar com ele, saber de seus sonhos, se os tinha. Qual ser humano não os tem? Até se pode perdê-los em uma gaveta do passado, nos refolhos da mente, mas que os temos, não há dúvidas. O Guima, muitas vezes me surpreendia com suas atitudes incompreensíveis. Ele me era especial, porque divergia de todos os outros adultos que conhecia. Ele era único na espécie, e eu me fascinava sem ter-lhe medo. Tinha questionamentos, mas não medo.

Certa tarde, jogando bola em um campinho de grama em frente à igreja, o vimos passar. Jogávamos sem qualquer calçado adequado ao esporte, as condições não nos permitiam além do sapato e do chinelo básico do dia a dia. Lembro disso pelas rosetas nos pés, intercaladas nas gramas, e que marcaram esse tempo de folguedos. Pois vimos o Guima passar lentamente por nós, nos olhando da distância de sua realidade. Ao confrontar a porta aberta da igreja, parou. Tirou o seu chapéu ensebado, colocou no peito e fez uma reverência lá para dentro, como se distinguisse uma autoridade… mais que uma autoridade, curvava-se perante um Rei.

Em outra ocasião fomos advertidos pelos pais para nos refugiarmos em casa, com portas e janelas fechadas pois uma boiada iria passar por ali. Transportava-se o gado pela estrada e atravessavam as pequenas cidades pela rua principal, no caso, a nossa. Um tropel ensurdecedor! Gritos dos homens à cavalo. Um mar de guampas. Mugidos, relinchos, acoos… Munido de coragem e curiosidade espiei por um buraco da janela de madeira. A cena me surpreendeu! O Guima estava na rua! Em meio à boiada que passava… Nessa noite não dormi direito imaginando o enterro do mudo no dia seguinte.

Pela manhã, ao acordar, olhei para fora e o vi calmamente comendo as rosas vermelhas do jardim em frente. E fiz uma pergunta a mim mesmo: Porquê o Guima não comia as borboletas coloridas esvoaçando a sua volta?