Jogando com emoção

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Tenho um colega que trabalha comigo, aqui em Santo Ângelo, e é originário lá do Rolador. Ele é uma pessoa avessa a jogos, não gosta de futebol, nem de fazer uma fezinha nas diversas modalidades de jogos semanalmente à disposição. Convidado a jogar, nega-se peremptoriamente. No entanto, houve momentos em que surpreendeu. E conto-lhes o que aconteceu certo dia antes do surgimento da barragem naquele município:

– A mega-sena está acumulada nessa semana – anunciou alguém.
Ele saiu e logo voltou com dois bilhetes da mega-sena. Era uma sexta-feira à tarde. Mostrou-nos os bilhetes que iriam correr no sábado à tarde. Eram 70 milhões.

– Vou jogar com emoção! – disse.

Não entendemos quando ele apareceu lá fundo do depósito com uma garrafa média de vidro, de Coca-Cola. Procurou rolha, cera e vela. Não entendemos o que pretendia… Mostrou-nos os bilhetes e conferimos a data que ia correr, no dia seguinte. Sob nossos olhos introduziu os bilhetes na garrafa de vidro, transparente, vedando-a totalmente. Antes disso, colocou um bilhete que igualmente nos mostrou o conteúdo: “Nesse dia …/…/…. às 17:30 horas, larguei de cima da ponte do Rio Ijuí, entre Santo Ângelo e Entre-Ijuís a presente garrafa com os bilhetes da mega-sena. Caso os mesmos sejam premiados (acumulado 70 milhões) peço o favor de devolvê-los para o endereço abaixo, que será regiamente recompensado”. E colocou seu nome, telefone e endereço. Filmou os números e largando a garrafa no rio, na ocasião, com forte correnteza porque havia chovido muito nos últimos dias. Temos a filmagem que mostra a garrafa seguindo na correnteza. Acompanhamos a sua aventura, amplamente documentada e visualizada.

Naquela noite, não dormiu! Sua via-crucis psicológica começou no início da noite. Meu amigo não quis jantar. Reuniu alguns familiares e colocou a sua preocupação e o medo de ser contemplado. O que fazer? Já que alea jacta est? Teceu conjunturas e planos, atitudes e determinações caso o azar lhe visitasse. Sim, estava tão eletrizado com a possibilidade de “ganhar” naquela situação que foi tomado por um temor enervante, a cada minuto subindo de intensidade. Já não era a sorte o que desejava mas, o azar. Sonhava não ser contemplado pois, caso fosse, sabia que iria viver um inferno. E essa remota possibilidade, pelo inusitado do ato, atormentava-o sem descanso. Desejou passar longe de acertar aqueles malditos números que agora adquiriam proporções enormes. O que fazer?

Por horas fritou na cama sem conciliar a mente, que fervia. Imaginava-se um Aladim… logo, o balão de sua imaginação furava. Levantava e anotava o que lhe parecia importante fazer no outro dia. Aquelas 18 horas que antecediam o resultado da mega-sena eram-lhes eternas, doloridas, torturantes. Por onde andaria a bendita garrafa de Coca-Cola naquele momento? Pensou, em cedo, tocar para o Rolador, onde tinha terras que findavam no Ijuí. Colocaria uma rede de redes sobre o rio, para apanhar até pensamento que passasse boiando por ali. Ao menos teria a certeza que a garrafa de Coca-Cola estaria entre o Rolador e Santo Ângelo, impossibilitando-a de seguir para o Rio Uruguai, para o Rio da Prata, e para o Oceano Atlântico.

Caso fosse contemplado iria nas rádios, nos jornais, percorreria os ribeirinhos, com uma chusma de contratados na caça ao tesouro, oferecendo 33% do valor do prêmio. Começou imaginando 5% para quem lhe entregasse a dita garrafa. Sabendo que quem encontrasse cresceria o olho, aumentou por diversas vezes a oferta do resgate, chegando a 33%.

E se a garrafa, em uma queda miserável, batesse em uma pedra?… Era de vidro! Porque não colocara os bilhetes em uma garrafa pet?… E se entrasse em alguma furna, desaparecendo em uma margem qualquer? E se… Agora era tarde! Não imaginou as peripécias do pode ser. E caminhava… e deitava… e rolava… e levantava… e escrevia… sentindo dor no interior de suas vísceras, que ia até a alma. Não queria jogar com emoção? Aguenta o repuxo!

O sábado foi intenso pois, na dúvida, se enfurnou no interior do Rolador, colocando as redes ao longo do rio. E atocaiou-se em uma das margens com dois rádios ligados. Vai que um deles quebre, vai que as pilhas acabem. Até saber o resultado, iria desaparecer para o mundo.

– E ai, ganhou?

– Sim! Ganhei!… Uma enorme diarreia.