Metrô do Rolador

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A tarde estava abafada, sem brisa, mormacenta… Percebíamos que aquilo era prelúdio para temporal que, lá no horizonte, se insinuava com massas compactas de nuvens negras. À convite de um amigo, viera até ali no município do Rolador, para conhecer inusitada e vanguardeira obra nas Missões.

Antes mesmo dele revelar do que se tratava – guardou o segredo a sete chaves – convidou-me, após o almoço, a cavalgarmos pelo campo imenso. Nessa marcha troteada ia descrevendo a Fazenda. Ali, os nelores…; mais adiante, as ovelhas…; no cercado à direita, os tatus… Tatus? Em cercado? Duzentos metros de cercado prendiam 527 tatus.

– Mas eles não fogem? – perguntei assombrado. Que eu saiba, tatu não respeita cerca! Cava, e foge! Não se prende tatus com cerca de arame!

– Santa Ignorância! – respondeu. O amigo me desculpe, mas qual tatu com carteira assinada, fugiria?

– Carteira assinada? De quê se trata?

– Do Metrô, ora bolas! Estamos construindo um metrô aqui no município do Rolador… esses, são os operários!

– Tatus?!

– O que tu queria que fosse… minhocas?

– E aquele fuca velho, sem rodas, lá no canto do cercado… Foi teu carro?

– Qual é… Aquilo é a casca de um tatu, que morreu! Nós utilizamos exclusivamente os tatus-canastra, ou tatuaçu, que são os gigantes da raça. Só a unha central tem 20 centímetros de comprimento.
De repente, minha montaria desapareceu junto comigo em um buraco. Gritei, solicitando socorro, não por ter me machucado, mas pelo susto. Meu amigo espiou lá do alto perguntando se eu estava bem e do paradeiro do cavalo. Aí me dei em conta que o cavalo sumira no oco da terra. Escutei distante, muito distante, o pocotó… pocotó… do bicho em disparada, no escuro. Deve ter saído lá pras bandas de Cerro Largo, pois foi naquela direção que o cavalo sumiu.

– Zaqueu! Me tire daqui! – solicitei.

Com auxílio do laço, indispensável no flete de Zaqueu, logo sai do buraco. E fui perguntando o significado daquilo.

– É o túnel do Metrô, criatura! – E pensando… à coçar a cabeça – Vamos ter que reforçar essas paredes com taquaras.

– Meu Deus! Que escuridão!

– Ah, sim! E caçar vagalumes para iluminar o interior!

Mas isso é um perigo! Pode ter animais peçonhentos, escorpiões, aranhas, jaguatiricas, ariranhas…

– … e uns cachorros bem treinados, como guardas.

– Que horror!

– E contratar uns gaiteiros para animar, de parada em parada. E umas prendas, para dançar.

– Zaqueu! Têm água por perto? Alguma vertente? Me deu uma sede…

– Isso! Boa ideia! Nas paradas vamos botar um bolicho para vender canha e matar a sede!

– Quer parar!… Tudo o que falo você direciona para esse maldito metrô. Vou calar! Não falo mais!

– Libras? ! Sim! Junto do bolicho um gaúcho pilchado receberá os surdos-mudos.

Virei as costas e sai, agora a pé, e ainda escutando os projetos do Zaqueu… “Vamos colocar mata-burros como catraca. Café de cambona para aquecer os viventes viajantes. Queijo de porco, rapadura, graspa, pastel, torresmo, salame, vinho… e um burro zurrando para anunciar as horas”.