O iluminado

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Recordo-me quando estive pela primeira vez em Sua presença. Cheguei até Ele movido mais por curiosidade do que por necessidade. Não tinha a real dimensão de minha miserabilidade. Eu me bastava em minha condição de ser desprezível. Fui motivado pelo deslocamento da multidão, desconhecendo o real interesse que movia aquelas pessoas. Sabia que entre o povo sempre sobrava migalhas, restos, dos quais eu me alimentava. Era um rato inconsciente. Para mim todos eram inimigos. E a minha presença no mundo era detestada, execrada. Absolutamente desacreditava que alguém pudesse dar-me uma mão sem a intenção de ver-me pelas costas, de sumir com a minha abjeta presença de pária social.

O dia estava ensolarado. Leve brisa bafejava aquela agradável paisagem litorânea. Senti, embora não entendendo o motivo, que esse dia seria especial. Alguma coisa estava acontecendo comigo, com a intuição que hoje eu me daria bem. Algum presente especial, algo que me bastasse por esse dia. Vivia exclusivamente no presente. O futuro, para mim, era o próximo dia. E ele era tão incerto.

Enquanto caminhava entre centenas de pessoas, alguns iguais se dignaram a responder-me do motivo daquela procura: “É o Pregador!” – responderam. Aquilo não me disse nada, mas continuei entre a caterva como a formiga que segue a trilha e o odor das mensagens químicas. Repentinamente, vi que pararam. O que me chamou a atenção não foi o fato de terem parado, mas a expressão em seus rostos… De repente, todos ficaram extasiados, genuflexos, encantados com algo que estava em minha frente. Nunca tinha visto tanta cara abobalhada assim juntas… Então, olhei, procurando o motivo que os encantara e… O vi.

Saído do meio das fendas de altas pedras, Ele estava em minha frente. Vestido de branco. Pacífico, sereno, com gestos comedidos, espalhou seu olhar por sobre a multidão, vindo a pousar seus olhos sobre os meus. Um raio não teria me fulminado como aquele olhar me fulminou. Um poder como nunca sentira serpenteou meu corpo maltrapilho, movendo as carnes magras. Mais que o corpo, moveu-se em meu ser um sentimento profundo que percebi não pertencer ao meu miserável físico, ou a outra constituição, que desconhecia.

O olhar que devassou minha alma tinha um poder que não assustava, apascentava. Aqueles olhos claros, ao pousarem em meus olhos tristes, moveram pesadas nuvens de desenganos, dúvidas e apreensões. Era como se, naquele silencioso momento, a luz daquele olhar me reconstituísse interna e externamente. Senti calor, paz, plenitude… e logo… vergonha, medo e culpa.

Logo começou a falar para a multidão. Percebi que o povo silenciava e não se mexia. Como petrificados, ficaram embebidos em suas palavras e nas mensagens que não entendiam, mas intuíam. Saí de meu estado catalético e pude observá-Lo… O que impressionava não era o Seu porte físico, a Sua bela figura de homem, mas o poder e a paz que emanavam de Seu ser. Não havia necessidade de alguém O apresentar, estava intrínseco. Nele, a majestade, o brando, o profundo poder emanava. O circundava. E o poder que irradiava penetrava em cada um, não havendo meio termo: ou amavam-No, ou odiavam-No.

Embora suas palavras caíssem em meu coração como um bálsamo, uma espécie de sonho, como uma promessa irreal, acreditava em cada inflexão, em cada sílaba, em cada pontuação de seu discurso. A presença do Pregador foi para mim como a tempestade que veio de dentro, derrubando tudo o que conhecia e acreditava. Foram palavras que tinham poder imenso, faziam estrago imenso, transformando e mudando tudo de lugar. Minha cabeça girava, deixando-me tonto, mas o coração, como nunca, bateu forte no peito mostrando-me que eu era um homem e tinha lugar na vida.

Nunca mais O vi, embora O procurasse por séculos. Tenho, no entanto, reflexos de Sua figura ímpar que se renova em Natais e momentos especiais, principalmente naqueles de angústia. Quase sempre quando contemplo a vida e ponho-me a pensar o que faço aqui e para aonde vou, percebo que Jesus está gravado em minha memória imortal. E hoje, em outra existência, aquele momento supremo da magna presença se insinua novamente. Há um “q” de novidade no ar, um sopro, um vento, um sussurro de anunciação. As massas continuam a mover-se na busca milenar de si mesmas, agora mais conscientes e determinadas. Já não sou um rato social, mas o peregrino em deserto escaldante, ansioso pela água da vida, aquela que miniminiza toda a sede e a sede toda. Uma trombeta há de fender o ar… A Presença se fará novamente!

Aos meus leitores, aos amigos, enfim, a todos desejo um FELIZ NATAL