Os bailes de outrora

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Há quarenta e poucos anos, o mundo era outro mundo, embora fosse o mesmo mundo de hoje. Explico! Morava em uma titica de cidade. Uma vila longe de tudo. De progresso, o rádio, o cinema, o cata-vento que fornecia energia elétrica, e uma dúzia de carros. Ali, somente o vento era presente, constante. Nem calçamento tinha.

No salão de madeira onde passavam os filmes, aconteciam os bailes. Multiuso na diversidade das necessidades. E baile era coisa para adulto – nós, pirralhos, estávamos literalmente descartados. No entanto, pelo salão ser de nossos pais, tínhamos livre acesso. No entanto, aquele tipo de evento não nos atraía, não fazia parte de nossos desejos.

Como o bando de meninos lá fora não podia entrar, nós juntava-mo-nos a eles, no desejo da brincadeira, da parceria, naquela total falta de oportunidades e lazer. (Lembro Federico Felline e o filme Amarcord).

Na rua, próximo ao baile, várias carroças, jardineiras, aranhas, cavalos e alguns automóveis. Nossa brincadeira predileta era de esconde-esconde. Uns eram mocinhos, outros bandidos. Os primeiros tinham que prender os outros. Quando estavam quase todos presos e sob a guarda de um dos mocinhos, lá vinha um bandido e libertava os presos, recomeçando a correria pelas ruas e quintais próximos.

– Aqui! Aqui! Aqui tem um! – alertava um do grupo para reunir reforços.

E a correria ia da luz para o escuro. Do escuro para a luz.

Muitas vezes procurávamos em vão algum menino que recolhera-se para dormir e não avisara. Buscávamos seu fantasma sem sabermos que já dormia abraçado com um tal de Morfeu.

Nossos gritos misturavam-se às músicas do baile, na noite cálida do verão, subindo, subindo rumo ao céu estrelado. Enquanto os adultos bailavam lá, nós corríamos aqui. Havia uma hora em que a brincadeira parava. O que fazer então? A reunião de piás ficava aberta à sugestões. E sempre haviam ideias do que fazer, de qual brincadeira desenvolver. Aquela noite, foi o Serelepe quem alertou os gansos.

– Vocês viram que o jipão do Seu Atanagildo está sem a tampa da gasolina?

Não precisou explicar mais. Um entendimento tácito, silencioso e determinante tomou conta de todos, arrancando sorrisos. Eramos em uns vinte piás. Azar dele que perdera a tampa!

Como não havia guardas, ninguém para vigiar a rua, a piazada, em fila indiana, desapertou-se no tanque de gasolina do seu Atanagildo.

Logo mais, o nome de cada um era gritado, chamando para ir dormir.

No dia seguinte, com o sol já alto, havia um único carro na avenida: o jipão do seu Atanagildo! Parado, em frente ao salão de baile.

Em outra ocasião, também noite de baile, um dos piás teve uma ideia. A maioria reprovou, mas sem esconder um sorriso no canto da boca. Ninguém queria assumir o ato. A coisa preta, dura, estava ali, sob o olhar de todos, no centro de um círculo. O mais velho daqueles meninos, o mais tinhoso, disse:

– Deixem comigo!

E lá foi ele se esgueirando pelas sombras, segurando o rabo.

Todos os piás esconderam, sabendo que teriam que debandar logo após o ato. E não deu outra. Somente a porta da entrada do baile estava guardada. As janelas ao lado, escancaradas, pois era verão. Uma vaneira escapava da gaita e dos violões. O salão borbulhava de gente. Súbito, algo entrou rodopiando no ar. Houve alguns segundos de silêncio mortal… Um gato morto fora lançado no meio da pista! Houve um princípio de tumulto, de gritos… Mas foi contornada a situação. Averiguada as cercanias, não se descobriu o autor do atentado, da brincadeira de mau gosto, e voltaram ao baile.

Os meninos, nessa noite, tiveram terrível pesadelo. O que os assustava não era o gato preto, mas uma tal de investigação, um inquérito no dia seguinte, que poderia terminar no chinelo ou na cinta.