Os inusitados ingressos do Cinema

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Na segunda, máximo terça-feira, meu avô viajava de jipe até uma comunidade próxima, alguma cidadezinha interiorana para, no salão paroquial, colocar o cartaz do filme a ser exibido no fim de semana. Como já estava lá, percorria o pequeno burgo e suas cercanias anunciando o filme em cartaz. Em cima do jipe um alto-falante falava do Charles Chaplin, do Mazzaropi ou do Tarzan.

Os cachorros ficavam ouriçados com aquela novidade sonora… Como podia a voz humana ser tão forte e ir tão longe? Os carroceiros, por momentos, esqueciam das rédeas, atentos ao anúncio do filme. As comunidades eram pobres e nem todos poderiam dar-se ao luxo de frequentar o cinema, mas, sempre haviam formas e meios de resolver os problemas. Os filhos adoravam, os pais também. Afinal, ali nada acontecia, e o cinema falava de outras realidades, paragens diferentes, outros comportamentos, realidades sequer sonhadas por aqueles agricultores e moradores da região. O cinema era verdadeiramente um sonho, uma fuga para outro mundo, um mundo tão distante dali.

Para o cinema, a roupa domingueira. Era como preparar-se para um baile. Tratava-se de um evento muito importante. Espiava-se para um mundo diferente e, a sensação, enquanto a projeção acontecia, era como se participassem daquela realidade exibida na película de celulose.

Em um tempo onde não havia televisão, unicamente o rádio. Ver eventos, inaugurações, desfiles, danças diferentes, era uma apoteose, um sonho temporal que acontecia no intervalo do jornal. E o jornal exibido trazia eventos acontecidos há meses, quiçá, anos. Mas não importava, para aqueles telespectadores tudo era novidade, tudo impactava, tudo era maravilhoso, pois experimentavam o máximo de uma tecnologia – o cinema.

Quando o filme começava, praticamente todos já estavam magnetizados na tecnologia da projeção, vivendo por momentos uma fantasia que fazia com que esquecessem as suas duras realidades. A seca, o temporal, as carências, as dificuldades tantas ficavam lá fora, esperando aquele tempo mágico acabar. O cinema era o passaporte para o sonho.

Nos dois intervalos do filme, enquanto o projecionista trocava o rolo – eram três – projetados por um aparelho 16mm, as pessoas tinham tempo para levantar, comer, beber, e comentar o que estava acontecendo no filme até ali. Cada um dava a sua versão do que esperava para a sequência ou o fato que mais a tinha impactado. Um sinal sonoro, e o retorno para a outra parte.

Conforme o gênero do filme, principalmente quando era de aventura, quando a cavalaria fazia carga contra os apaches, ou outra situação de intensa ação, batiam-se os pés no chão como forma de incentivo, para aliviar a tensão ou mesmo para zoar. Isso quando não era assobios intensos quando a foco se perdia, quando o filme arrebentava, quando alguém atrapalhava de alguma forma interferindo na projeção.

Quando o filme acabava e a luz acendia, era de ver as caras de alegria, os sorrisos, a satisfação nos semblantes. Imergiam do escuro para a luz, mas vinham felizes para a realidade – isso era o cinema naqueles tempos de pura magia.

O povo, logo debandava. O avô recolhia as tralhas cinematográficas. E eu ficava boquiaberto com os ingressos que levávamos: galinhas, abóboras, pêssegos, rapadura, feijão… Aquilo também eram ingressos para os que não tiveram dinheiro vivo… E quem disse que aquilo não era ingresso vivo? As galinhas eram! E todos, comestíveis. Meu avô não impediria o acesso aos que tinham como dinheiro apenas o que produziam, e os ingressos diversificavam ao inimaginado.

Um dia veio um mico. Eu fiquei muito contente com o macaquinho. Meu avô fotografou-me com dois anos ao lado do mico. Ele distraia-se com uma banana e não deu bola ao meu olhar assustado.

A caixa coletora dos ingressos também poderia constituir-se de uma gaiola. Esse era um tempo de fantasia e fez parte da minha infância. Por mais que eu viesse a exercer outra profissão quando adulto, sinto que não poderia deixar de contar histórias, verdadeiras e fictícias, pois ficou impregnado no fundo da minha alma, a magia do cinema. E minha primeira coleção foram os fremes descartados, aqueles pedacinhos de filmes que eram cortados para poderem ser colados às partes rompidas.

O cinema nasceu em 1895. Meu avô, em 1904. Um resistiu 103 anos. O outro ainda está ai.

– Quem conseguir identificar quem é o mico, na foto, ganha uma entrada de cinema.