Problema no escafóide

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Jantávamos no sábado à noite, em confraternização com colegas de serviço. O assunto logo sinalizou o problema de outro colega que não estava presente.

– Afinal de contas o que houve com o Hélio?

– Não sei ao certo, mas ele está muito acabrunhado. Inclusive disse ter medo de não mais poder jogar futebol. Vocês sabem o quanto ele gosta de uma pelada. Terça e sexta-feira ele não troca o jogo por nenhum outro deleite. Ele é goleiro!

– Goleiro? Com aquele físico?… Fico imaginando ele voando de uma trave à outra para tentar interceptar uma bola.

A risada foi unanime… Hélio pesava 113 quilos. Apesar de jovem ainda, era-lhe impossível um voo nestas condições, mas ele defendia seus préstimos de goleiro voador. Ficávamos tirando, durante a semana, curiosos em ir vê-lo voar como passarinho, ou melhor, como besouro, um tanque de guerra. O problema é que não proporcionava para nenhum a oportunidade de vê-lo em ação.

– Mas o que ele têm? Foi esse o motivo que não veio ao jantar?

– Sim! Parece-me que está com problema no escafóide! Vocês sabem que raio de coisa é essa? O que é um escafóide?

Ninguém sabia! Assim, o assunto escafóide acompanhou as linguiças, o tatu e a costela. Escafoideram as possibilidades do assunto, regado a cerveja gelada e carne gorda. Durante todo o jantar Hélio esteve presente na imaginação de todos voando daqui para ali, como uma libélula atrás de uma bola de couro imaginaria, agora preso a um escafóide que, afinal de contas, ninguém sabia o que era.

– Euuuu sei o que é…. um escaaafóide!

– Cala a boca, Rodrigo! Tu já esta bramado, sub-zerado, polaridado…

– Nana, nina… nããão! Eu sei do esss…ca…foí…de do Hélio! É um pro problema da poupeta. Ele ma chucou as ná…degas quanndo se se esborrachou no chããão…

– Não é nada disso, seu álcool benzido… escafóide é um problema psíquico, coisa da cabeça. – falou o Jonas.

– Eu acho que não – disse um terceiro. Para mim, escafóide é problema de gases! Eu que o diga quando passei pelo Hélio hoje à tarde, pelo corredor, lá na Empresa. Quase fui pulverizado pelo deslocamento e pelos gases. Precisei de muito banho e um vidro de perfume para aqui comparecer.

Logo adentrou a Lúcia com uma bandeja, anunciando:
– Olha a cocada moreninha!

– É isso! Esclareceu o Tonho. Agora lembro… O Hélio é louco por uma moreninha. Deve ter esfolado o escafóide jogando uma partida com ela. Imagino agora o que seja o escafóide… Nisso, para surpresa geral, chega o Hélio, o motorista da empresa, esbaforido, suando, mancando… Por educação deram uma trégua até que ele serenasse os bofes. Serviram-lhe no maior companheirismo, uma gelada. Insinuaram que olhasse os espetos, os últimos na churrasqueira, prendendo carnes já incineradas pelo tempo e pelo excessivo calor. A ovelha mais parecia uma asa de morcego. Nem de longe deram-lhe a entender que o seu problema de escafóide fora a pauta do jantar. Enquanto o gordo comia e bebia com avidez de gafanhoto, uns olhavam-se para os outros ansiosos sem saber quem seria o primeiro a formular a maldita pergunta…

– Hélio! – falou o Rodrigo – poderia dar-nos a gentileza do seu esclarecimento. Preocupados com o amigo e colega estávamos cogitando do seu problema. Sem conseguirmos solução, afinal somos um bando de antas, mas profundamente preocupados com o seu escafóide, solicitamos que nos esclareça que raio de problema é esse. É material ou imponderável? É mental, físico ou espiritual? Afinal, em que quadrante de seu corpo aloja-se esse maldito escafóide que já está me dando nos nervos…

– Aqui, ó! – e apontou para o tornozelo inchado. Com um pernil de ovelha na boca, ouvimos afirmar que torcera o pé.