Refém do coração

0
119

Refém é alguém que fica em poder do inimigo para garantir a execução de uma exigência imposta. Agora, quando se troca a palavra “inimigo”, a coisa muda substancialmente. Quando ficamos reféns de outro coração, que amamos, o universo muda de lugar.

Uma coisa é prender o corpo, tolher a liberdade de livremente andar por onde queira. Outra coisa é prender pela emoção, ficar cativo de outro coração. Querer a liberdade para fugir pois não há mais como nutrir, pois o fluxo já não corre nas duas vias, perceber que aquela fonte já não brota para você… e não conseguir! Perceber que correntes imponderáveis, invisíveis e poderosas te atam àquele coração amado que já não te quer… e sentir incapaz de romper essas amarras. Um processo de profundo desgaste abate e corrói fazendo das horas de separação um tempo de intensa dor, cujos remédios inexistem.

Amar intensamente, entregar-se de corpo e alma, é um processo profundo, delicado e muitíssimo complexo. Só acontece quando se constrói uma história de dedicação, quando se constrói tijolo a tijolo em um tempo relativamente grande. O amor não nasce em fugidias férias de verão mas se constrói principalmente no inverno, sob chuva intensa e muita dedicação. O amor acontece quando dá inúmeras provas de dedicação, sempre pronto, sempre alegre, sempre positivo, olhando o futuro com um sorriso franco. Amar é acreditar que o coração amado é a fortaleza por tanto tempo procurada, a despensa de necessidades emocionais onde nada falta para a felicidade. Amar é esquecer o tempo, perder-se nas horas, crendo eterno… “Que seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”. Vinícius de Moraes.

Quando o coração amado rompe… rompe para ele, não para nós que ainda estamos mergulhados nesse amor. A súbita separação, quando não consensual, é como cair em um rio, não saber nadar e agoniar-se naquelas águas bebidas à força. (A exigência imposta, no conceito lá do princípio do texto). Falta o ar… O desespero toma conta… Os referenciais se perdem… Nós nos perdemos de nós mesmos.

O mundo têm 7 bilhões de seres humanos. É um paradoxo ficarmos refém de um coração.

Quando estamos reféns de um coração, vivemos sob a presença de um fantasma. Ele está em toda a parte, nos acompanha sempre, no trabalho, no estudo, em nosso quarto interno de dormir quando, não nos abandona e não nos dá a paz. É torturante, sempre presente, diferentemente de antes, quando nos amava, elevando, acalentando, fazendo sonhar… agora, assombra! Ficar preso a um coração que nos deletou é uma das piores provas que podemos enfrentar. É prova moral de altíssimo poder, descarregando cargas elétricas torturantes pelo silêncio às nossas perguntas, pelo descaso ao nosso pedido, pela fuga a nossa presença, pelo desinteresse à nossa dor.

Sabemos… a melhor medida é partir para outra, esquecer! O coração, nesses casos, desvinculado fica do intelecto, e não dá bola as melhores ponderações, aos melhores conselhos de uns e de outros. Somos reféns! E como reféns estamos sujeitos, de mãos amarradas, sem poder libertar-nos do amor que construímos e alimentamos com o melhor de nós. Voltamos à adolescência da mais pura emoção, destituídos do intelecto e da experiência. Perdemos nossos referenciais e nosso amor próprio… isso é preocupante!
Quando nos tornamos refém de outro coração, já não vivemos mais… sobrevivemos! Arrastamo-nos na incompreensão, nos porquês, nas dúvidas, que tornam-se tantas e tão constantes. Temos dificuldades de retomar o leme, o timão, o volante, pelo simples fato que colocamos no piloto automático – a navegação estava tão segura! Nos tornamos amargos, desconfiados, inseguros. Refém é refém, seja de que forma seja.

O grande lance para libertar é tentar esquecer de si, esquecer da carência, da fome, da sede, do desejo da doce presença que até então, encantava. Temos que desencantar e cantar novamente sem pretensões de sermos ouvido. Para conquistar a liberdade outra vez temos que mudar o foco, buscar novos portos, novas metas e imaginar um farol lá ao longe, piscando muito sutilmente, indicando novas terras, um novo continente, uma nova história.
Essa âncora do amor, como é difícil recolher!