Sete máscaras à procura de um rosto

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 Certo dia, após importante reunião de máscaras, sete delas saíram pelo mundo à procura de um rosto. Já não lhes bastava a simples condição de máscara, embora cada qual tivesse a sua peculiaridade, a sua conformação, singularidade e característica própria. Elas se sentiam ocas, carentes de um rosto que lhes preenchessem a personalidade. Foi uma procura desesperada por vários países, comunidades, por todos os quadrantes. Ficavam nas esquinas das ruas à espreita dos passantes. Milhares de rostos eram analisados e descartados. Como eram exigentes aquelas máscaras!

A primeira chamava-se Gula. Ela tentava adivinhar o rosto perfeito para ela através dos volumosos abdômens, da carne farta, da obesidade mórbida. Mas estranhamente, mesmo checando aos milhares, nenhuma encaixava, nenhuma se adequava, nenhum rosto encaixava perfeitamente, deixando-a frustrada e com vontade de comer algo, qualquer coisa…

A segunda máscara, Avareza. Não olhava as pessoas, mas o que elas portavam: jóias, brilhantes, carros e outras situações de ostentabilidade. Queria tudo, não rejeitava nada. Orgulhosa e prepotente não percebia o perto, buscando no distante. E na distância desconsiderava o que estava perto. Um claro indício de falsa perspectiva, de imprecisos objetivos.

A terceira, Inveja. Oh! Como queria ser igual aquele, aquela. Aquele outro, então… o quê ele tem que ela não tinha? Que merda! A inveja é uma merda! Busca-se algo que não se conquista. Deseja-se o sucesso sem o necessário esforço para adquiri-lo. Ela não é verbal, mas profundamente visual. Come com os olhos. A inveja invejou a todos, de cima à baixo, e ficou sozinha…

A quarta, Ira. Essa máscara soltava fumacinha. Não tinha controle de seu destempero e agredia até as máscaras vizinhas. Destilava ódios e tinha as cores do rancor. As pessoas fugiam dela não deixando colar em seus rostos pois ela dava medo. A ira é uma peçonha que afasta e tem alta propagação negativa. Ficou a ver navios…

A quinta máscara, Soberba. Reis, rainhas, príncipes, potentados, autoridades… nenhum daqueles rostros estava ao seu nível. Achava-se a melhor das máscaras, a mais bela, a mais charmosa, a mais cara, no entanto, todos a desprezaram pois a soberta afasta gregos e troianos. É um falso pavão. Jamais deixaria uma lágrima escorrer para fora e ser visível, mas vi que chorou por dentro.

A sexta, Luxúria. Essa máscara olhava corpos, os mais esculturais. Cheirava sexo e perfume. Interesse e egoísmo. Tudo era-lhe matéria, carne, prazer. Nada além matéria. E sorria como uma doida, uma demente enquanto a multidão também sorria para ela sem, no entanto, um único rosto dignar-se a experimentá-la. A luxuria é transitória, efêmera, inconstante.

A sétima máscara, Preguiça. Essa nem se dignou a procurar. Ficou na rede esperando que algum rosto a descobrisse para ser experimentado. Para quê preocupar-se agora se pode preocupar-se depois? Ociosidade e omissão são seus outros nomes. O tempo passou e ela perdeu o bonde das oportunidades. A preguiça é outra grande M.

Dias depois, as sete máscaras reuniram-se novamente para analisar os resultados. Viram que nenhuma delas era completa ou autossuficiente. Eram todas falsas alimentando-se de negatividade. E viram, estarrecidas, o povo voltar-se repentinamente para elas. Fizeram uma grande fogueira em praça pública e tocaram fogo nas sete máscaras. Aquela humanidade, a partir desse evento tornou-se mais bela, espiritualizada e feliz. Perceberam que máscaras apenas escondem feiúra, falsidade, e imperfeição.