Sou candidato enRolador

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– Prometo criar o primeiro metrô nas missões!

– Prometo criar uma base de lançamento de foguetes!

– Prometo lançar as primeiras cabines de teletransporte!

Sonhadores e sonhadoras! Distintos eleitores, votem em mim e (não) se arrependerão. Prometo conseguir o impossível, e o possível transformarei em utopia. Para o pai, para a filha, para toda a família… Euzinho na cabeça!

Pesquisem minha plataforma já divulgada na coluna de um jornal local, onde trato dos assuntos acima, entre outros tantos, tão mirabolantes quanto as promessas de uns e de outros. Nos artigos, detalho a sua importância e aplicabilidade regional, quiçá, global. Temos que romper barreiras e não importa a realidade vigente, se há carro ou se há gente, vamos atropelar! Claro que, uma vez lá, a coisa deverá ser tocada em outro ritmo, com outro instrumento. As palavras e promessas não serão exatamente as que ficaram para trás… O ontem passou, é passado… O que importa é o presente, e o presente pretendo ganhar dos meus eleitores: seu voto!

Estou louco para andar de avião e, com a ajuda da sua mão sufragando para mim, andarei nos ares, apesar dos pesares… Diárias nababescas haverei de embolsar daqueles que em mim votarem. Sou duro mas sou autêntico. Só dói, só pesa em quem tem problema de consciência. Você como é limpo, limpíssimo, e nada te pesa, atire a primeira pedra… Estou louco para desfrutar mordomias. Mama mia! Como é bom mamar! Para que se cansar com jornadas diárias e bater ponto, andar de bicicleta ou ônibus e depender de restaurante popular. Isso quando não tiver que apelar para a marmita. Correr atrás da máquina sempre, tapando furos cada vez maiores na altivez de ser honesto, na tentativa tão árdua de ser leal e probo, em meio à tempestade do dia-a-dia, isso é para poucos.

Vote em mim, sou candidato enRolador!

Tenho como padrinhos políticos desde Barack Obama, o Mahmoud Ahmadinejad, e o presidente Hugo Rafael Chávez Frías. Como o último nome diz, é fria.

Atenção empresários. Estou recebendo a suas polpudas contribuições. Caixa dois, três… nem precisa de caixa, pode ser nas meias, até nas cuecas.

Sei que existem políticos honestos, comprometidos com o social, que esquecem do “eu” pelo “vosso”. Até ser provado o contrário – existem! Esses são heróis em meio à tanta lama. Porém, sou candidato enRolador. Aceito uma mãozinha… se camuflada, melhor. Meu vocabulário é rico em dualidade, subterfúgios, sinuosidades, meandros, indefinições, imprecisões, embora tenha para o improvável a certeza da promessa.

Sei que haverá um dia – e não estarei mais na atual forma física – mas haverá um dia onde os candidatos serão escolhidos por apenas um critério. Não pesarão em seus currículos, títulos, situação social, nem contas bancárias estratosféricas. Apenas a moralidade! “A lei de amor substitui o individualismo pela integração das criaturas e acaba com as misérias sociais.” Lázaro. Paris. 1862.

Historicamente, quando humanistas, filósofos, sociólogos, religiosos ou escritores feriram suscetibilidades alheias no campo das ideias e das tendências vigentes, candidataram-se à prisão, à surras. Foram calados e sujeitos a tomarem chá de sumiço. Ainda bem que os tempos são outros, motivo de me candidatar.

Para que preocupar com a saúde dos outros se estou ótimo? Para que importar-me com mobilidade, com trânsito caótico, se tenho um piloto, um helicóptero e umas fazendinhas por aí? Frio, calor, calamidades… Não me importo! Há sempre no mundo um paraíso a me chamar. Basta querer. Édens, paraísos… fiscais ou não… É para lá que vou!

Meu partido é único, assim como eu. Um autêntico candidato enRolador.