O janeiro em que o Brasil me perdeu, por Marcelo Canellas *

0
130

Marcelo Canellas* é um talentoso jornalista gaúcho nascido na cidade de Passo Fundo e que formou-se na Universidade Federal de Santa Maria, iniciando sua carreira como repórter policial. Compartilho com vocês seu texto inteligente (entre dezenas que li, excluindo as bobagens, os aproveitadores e os idiotas sem noção que opinam sobre tudo), publicado na ZH de segunda-feira (28). Acredito que assim como eu, você também tenha elo sentimental com Santa Maria. Amigo, vizinho ou parente que já estudou por lá. Amigo, vizinho ou parente que já serviu na Base Aérea. Amigo, vizinho ou parente que já morou um tempo. Amigo, vizinho ou parente que já excursionou até lá participando de seminário, palestra ou curso. Se não foi amigo, vizinho ou parente, provavelmente em “alguma época de dias passados foi um de nós”, que tri acolhido por essa cidade – que é uma espécie de coração do Rio Grande – prometeu voltar para abraçá-la muitas vezes… e assim o fez! Sem mais palavras…

“Eu hoje tenho 20 anos e quero me divertir. Meus pais estão dormindo em casa e amanhã haveria um churrasco. Eu tenho a vida pela frente e quero mudar o mundo. Mas também quero namorar, dançar, rir, andar a esmo com amigos nas lombas íngremes da minha cidade. Eu sou feito de bafagem úmida da Serra Geral, dos morros que circundam a Boca do Monte, do eco metálico dos trilhos de outrora, da lembrança ancestral da Gare onde meus avós trabalhavam. Ainda que eu não tenha nascido aqui, eu tenho o viço púbere do futuro. Eu posso ter vindo das barrancas de Uruguaiana, das campinas de São Borja, das grotas de Santiago do Boqueirão, das videiras de Jaguari, de São Pedro do Sul, São Sepé, São Gabriel, Dom Pedrito, de cima da serra, não importa. Santa Maria sou eu, cidade cadinho e aldeã, que nos pariu a todos em seu útero colossal. Eu sinto o afago do vento norte, eu vejo anciãs tomando mate na janela e cadeiras nas calçadas da Vila Belga em uma tarde quente de janeiro. Eu tenho o lastro interiorano de minha cidade, mas também as narinas abertas, os ouvidos atentos, os sentidos despertos para o que enxergo na face jovem de uma urbe sempre aberta ao novo, cosmopolita e inquieta, convidando-me para a festa da vida. Por isso celebro, brindo, bailo. Tenho o frescor do campos em meus modos, a avidez universitária do saber. Recebo, faceiro e agradecido, convite do conhecimento, as portas do desconhecido a me cortejar. Como eu não quereria viver? Então entro numa boate e não tenho mais voz, não tenho mais planos, não tenho saída. Rogo a todos os que andaram sobre os paralelepípedos da Rio Branco para me salvar. Quero correr e suplicar socorro a quem me possa acudir. A benção, Carlos Scliar. A benção, Raul Bopp. A benção, velho Cezimbra Jacques, meu Prado Veppo, a benção Felippe d’Oliveira. Iberê Camargo, tu que estudastes no Liceu de Artes e Ofícios, ali bem perto de onde a primeira faísca espocou, a benção. A benção, todos os artistas e poetas da Boca do Monte. Precisamos de vocês para explicar o sentido do inexplicável. Vocês, que tiveram tempo para luzir, expliquem-nos: porque temos de findar? Como posso adormecer, se mal despertei para o mundo? Como posso abdicar, se não brinquei o suficiente, não amei o bastante, deixei incompleto o edifício da minha história? Eu não choro só por mim, e nem pranto cai sozinho. Minha cidade é hoje o Brasil de luto. Minha juventude perdida é o meu país perplexo e tonto, impotente a velar meu corpo. Santa Maria, rogai por nós.”