Onde está escrito no Manual?

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Aconteceu em 2009, na Inglaterra. Uma mamãe Suricata (ou Suricato como queiram) morreu dias após ter dado à luz aos seus 5 filhotes. Os fofinhos, que são nativos do deserto do Kalahari, sobreviveram graças aos cuidados de alguns humanos e a ajuda providencial de um disfarce criativo: uma falsa mãe de pelúcia. Na época saiu na capa do The Sun – o tabloide britânico de maior sucesso naquelas bandas – até resgatei uma fotografia para anexar na montagem para vocês não acharem que estou mentindo, afinal “da mente fértil dos escritores,” nunca se sabe o que pode sair…

Partindo dessa história vou contar-lhes um segredo, que obviamente a partir de agora deixará de ser segredo: não que eu colecione bichos de pelúcia… (ops!), agorinha mesmo, na virada do ano, fazendo uma daquelas megas operações (ia usar o termo rescaldo, mas descartei) de “reengenharia,” me deparei “curtindo” dezenas de olhares pidões dos meus bichos de pelúcia: da infância, da adolescência e de antigos amores…

Me diz aí onde está escrito no “Manual da Maturidade” que devemos nos descartar dessas preciosidades? Das recordações com cheirinho de felicidade? De carrinhos de corrida com a cara do Mário Andretti colada na porta? De caminhões enormes com carrocerias de madeira, feitos por um tio super simpático que já passou para o outro lado… e nós ainda sentimos uma falta danada. Porque crescer implica (e complica) tanto ao ponto de termos de nos desfazer das bolitas, das cartas de baralho com a escalação da magnífica seleção de 82, das pipas multi coloridas, das luvas de goleiro da mesma marca que o Zetti usava, das bonecas compradas na fronteira, que ainda hoje sorriem para nós com suas bochechas cor de rosa… Onde está escrito que as figurinhas da Liga da Justiça perderam seu valor? Que o estojo de lata com desenhos da Turma do Pernalonga vale menos hoje do que naqueles dias de plena alegria, quando não fazíamos a mínima ideia do tamanho desse vasto mundão e que sobrenomes tipo Bush ou Gaddafi significavam tremenda enxaqueca e desgraças piores!

Provavelmente antes de 2009 e depois, outras “falsas mães de pelúcia” vieram em socorro de outros bichinhos órfãos em alguma parte do planeta. E apesar da digamos assim “a falsidade da ação,” foi o que lhes manteve aquecidos e com a sensação de um hiper abraço gostoso… Tá bom… tá bom… viajei um pouquinho… Excuse-moi mon petit! Não se trata de crise saudosista de “quando eu era um filhote,” nem vou ligar para o fulano de tal por exemplo, por quem fui obcecadamente apaixonada me intrometendo no estágio atual de sua existência, (família, negócios, sogra, IPVA, IPTU, TV a cabo, mensalidade das crianças), para entre uma e outra taça de vinho fazermos “revival” do que já passou. Exatamente já passou… simples assim…

Quanto aquelas dezenas de carinhas lindas (e órfãs), escondidas no meu guarda-roupas – que claustrofóbico – eis a reengenharia a que me referi no 2º parágrafo! Estou organizando uma linda estante (que aliás me pareceu ontem à noite até pequena), onde deixarei expostos os meus tesouros. O incrível (pra mim pelo menos né) é que ganhei de amigo secreto no Natal um enorme urso cor de rosa (que batizei de Murilo Rosa) e semana passada, o filho de uma colega que está de mudança para Minas Gerais (passou em um disputadíssimo concurso federal), na janta de despedida, me deu um cachorro de pelúcia encantador (que batizei de Orlando Bloom), porque fui “o cupido oficial,” apresentando sua atual namorada e agora, segundo nos comunicou (ueba!) futura esposa! Pode rir se quiser, achar bobo ou sem noção…

Mas a titia Hebe Camargo nos seus bem vividos 83 anos (08/03/29) falou em seu programa dias atrás, que ainda guarda as primeiras joias que ganhou dos namorados. E qual a diferença? (Estou falando de joias, não do dinheiro da Hebe!) Simples: cada um sabe quais são as suas joias: suas preciosidades, seus tesouros mais valiosos, incluindo (ehhh) bichos de pelúcia…