Por que não falei sobre eles

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Em inúmeras ocasiões estive próximo de Moacyr Scliar (1937-2011), mas não próximo o suficiente para quebrar “a barreira do congelamento” e conseguir dirigir-lhe poucas palavras. Como grande fã (mas quem não é?) dos seus maravilhosos escritos sobrar-me-iam assuntos para iniciar qualquer tipo de conversação. No entanto, “o processo de congelamento” impediu-me de qualquer ação. Situação essa (reação ou comportamento?) que se repete constantemente. Num ciclo de palestras do astronauta Marcos Pontes. Num seminário com a participação do Mário Vargas Llosa. Num restaurante onde almoçava o Teddy Correa do Nenhum de Nós. Num encontro literário com a presença da Lya Luft. Numa feira de agronegócios e o Elton Saldanha ali parado na frente de um dos estandes (sempre lindo por sinal) do meu lado (lindo, lindo, sorrindo). Com o Luís Fernando Veríssimo então já virei pedaço de iceberg! Tamanha admiração, tamanho amor e tamanho respeito. Depois derreto de raiva… Como pude ser tão imbecil e simplesmente não dizer “Oi?” “Eu gosto de ti!”

Num Festival da Canção há séculos atrás um amigo jornalista e locutor de rádio iria me apresentar ao Rui Biriva (1958-2011) e eu implorei para que desistisse da ideia e isso que sabia cantar e já tinha até vertido para o espanhol “Santa Helena da Serra” enviando-a a amigos de intercâmbio no Chile por Pombo Correio. (Sim você leu direito “Pombo Correio,” porque naquela época a Dona Internet engatinhava nessas paragens.) Então nos dias que seguem nem passo diante do espelho para não enxergar o Burro Falante do Shrek e ouvir aquela voz (incrível do Mário Jorge Andrade dublando o Eddie Murphy) perguntando: “Mas como? Mas como você pode fazer isso?”

Mas por que afinal não falei anteriormente sobre eles (Moacyr e Rui), talvez você esteja se indagando? Faltou-me ânimo. Coragem. Palavras. (Palavras certas em momentos difíceis são fonte de luz. Palavras erradas são rastros de pólvora provocando mais estragos.) Quando Scliar faleceu em fevereiro de 2011, custava-me acreditar. O mesmo sucedeu com o Rui no mês de abril daquele mesmo ano. Dor, raiva e tristeza se intercalavam. (Recentemente quando Luís Fernando Verissimo foi hospitalizado senti-me angustiada, mas tudo teve um final feliz – desculpe a redundância – felizmente!) Sabe o que eu gostaria de ter feito naquela ocasião? Gostaria de me postar a sua porta e dizer coisas do tipo: “Cara eu te amo!” “Eu já li tudo o que você escreveu desde que nasci.” “Acho você um gênio!” “Não bata as botas antes dos 120 anos, no mínimo!” (Ah sim… e por falar nisso, te cuida que o Paulo Santana morre de inveja de ti! Nem passa perto!!!) Mas não o fiz nem o farei por que obviamente congelaria na esquina. (Sem contar que de repente a Lúcia Veríssimo poderia chamar a Brigada: “Pessoal venham rápido, tem uma maluca aqui em casa agarrando meu marido!”)

Enfim… pra encerrar gostaria de dizer que hoje iria escrever sobre o Campus Party (talvez o maior evento de inovação tecnológica, internet e entretenimento eletrônico em rede do mundo), recentemente realizado em São Paulo Capital e sobre Alienígenas e Tecnologia – aliás meus temas favoritos – mas em respeito aos últimos acontecimentos em Santa Maria (RS), não vou externar euforias. Em respeito aos últimos acontecimentos não escolherei palavras de autoajuda, de efeitos esfuziantes, palavras avulsas quaisquer que sejam elas para tocar nesse assunto. Apenas o silêncio, até a dor passar ou ao menos fingir diminuir, enganando nossos sentidos, para que possamos todos tocar nossas vidas adiante. Silêncio. Respeito. E oração!