A boa da sanga

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É evidente: tomo por base os desenhos com entornos recheados de volúpia do David, ele possui uma dose de “bom senso” e aí a forma toma corpo realmente, e surge algo atraente, tem que ser assim mesmo, pois, do contrário perde a graça. Se tivéssemos necessariamente as mesmas formas, todos rechonchudos ou palitos, sonolentos ou carrancudos, a monotonia seria a tônica. Quão belo quando surge um sorriso encantador, quão enamorado, ao surgir alguém com os ares primaveris sinalizando com o “norte” almejado! As sardinhas do rosto (as enlatadas não, não!) enriquecem o (a) portador (a), e caem feito estrelas para o prosador.

A sanga! Outrora significava um riachito com águas cristalinas “recheadas” de lambaris ágeis e “soberanos”, ora subindo, ora descendo às águas que cortavam potreiros, lavouras e campos. Lindo, lindo! O emocionante para a gurizada era pescar uma porção daqueles milhares e milhares que fartavam ditas sangas. Aqueles que retornam ao passado na linha do tempo, ainda veem os cardumes avançando na direção das massas para pão lançadas por isca. Esses espaços estão cada vez mais difíceis de localizar, mas sonhar não custa!
A boa da sanga andava nesses locais, comendo pitanga! Desinibida, alegre, faceira, qual uma teiniaguá, encantava a gurizada, sumia, reaparecia, voltava a sumir. Era algo assim, cinematográfico! Embora de cinema, a gurizada lá do rincão não tinha conhecimento algum. Algo fantástica. Linhas realmente curvilíneas! Uma perfeição. Claro, alguém vais desdenhar, por razões óbvias. Compreender a natureza exige muita paciência, tirocínio e perspicácia, diante das acentuadas diferenças, entre os exemplares humanos.

Qual a razão de tanta disparidade entre os seres. Enquanto umas se esforçam para ser retilíneas, com as protuberâncias bem salientes, firmes, eretas, causando calafrios até mesmo em olhares despretensiosos. Outras não estão nem aí para a situação do corpo, vivem felizes da forma que ele se apresenta e ponto final. Uma outra parcela, malha, malha e remalha exaustivamente, reinventando, por vezes, seu próprio corpo. Aí surge um violão! Bem delineado, moldado a capricho, para alguns, outros tem entendimento diverso deste. Cada qual vê as coisas a seu modo e assim deve ser! Vale o exercício do livre arbítrio.

Mas os meninos frequentadores da sanga asseguram que a boa continua aparecendo por lá, nadando nas mesmas águas remanescentes, toda nua, se aproxima deles, porém, toda vez que alguém tenta se aproximar dela, ela desaparece. Some! Outros asseguram vê-la nas noites de Lua cheia, quando pode ser vista por inteiro tomando banho de Lua, estirada sobre as pedras das margens, ao contrário das demais, ela evita os banhos de Sol, pois prefere as luzes do espelho deste!

Ao sorrir, a boa da sanga agranda o rosto e seu esplendor realça a natureza margeadora das águas e nelas reflete luzes de estranho luzir. Certa feita, um dos meninos tentou fazer-lhe afagos, acarinhá-la. Levou a mão suavemente em direção a face, contudo, quando estava no viés de tocá-la, simplesmente, viu-a sumir numa cortina dourada, sorrindo debochadamente. O menino está convicto da existência dela, embora o decurso do tempo, diz ainda sentir os aromas da deusa que o “enfeitiçou”. Havia dias foi surpreendido tentando cantarolar a letra do momento, de Michel Teló.