A cachoeira pras almas vista do alto

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Noutro dia ocorreu uma cisão entre corpo e alma, enquanto o primeiro permanecia silente, em profundo repouso, a alma aproveitou para dar uma volteada, assim pelos pagos, mas se perdeu nas lonjuras e num desses canais por onde o vento faz morada, restou por pegar uma carona e foi pras alturas e do infinito vislumbrou a um espetáculo maravilhoso – a cachoeira pras almas –, construída, especialmente, para os banhos destas! Algo fenomenal. Numa montanha elevadíssima com vegetação espessa, um cânion gigantesco ao centro, onde as águas se precipitavam no despenhadeiro formando véus serpenteados de límpidos cristais. Uma imagem indescritível! Magia.

Aquele entrevero de almas saudando a paz…! Ah, a cachoeira possui, inclusive, arquibancadas e um espaço especial para o banho de sol, para o aconchego, para a prosa, até mesmo, para o matear! Há a sensação de ser um paraíso. Um arquipélago isolado do restante do planeta sem acesso aos homens. Lá, decididamente, os homens não encontram acesso. Diante da distância e da ausência de um diálogo com a alma mestra, foi impossível desvendar as razões dessa proibição. Argumentos, certamente, elas devem ter de sobra para impor o cerceamento ao acesso humano. Porém, isto é de somenos, valem “ouro” aqueles momentos e a beleza do cenário. Minha alma não pode se banhar com as demais, havia vencido o tempo para o retorno à carcaça e aí foi um verdadeiro tropel. Talvez, esteja arrependido de ter voltado!

Na noite, reluzem estrelas e o luar, sem o manto do crepúsculo, o Sol se transpõe em dourada mensagem. Feito paraquedistas as almas se lançam do alto para mergulhar no fundo da cachoeira onde uma multidão delas aplaude a travessura de outras. Nas profundezas das águas há canais que conduzem ao recôndito das cavernas, estas, ornadas pelo mais cobiçado dos metais, é nesses locais onde se realizam as festas, os momentos teatrais, no mais profundo do lirismo imaginável. Pode parecer invento, no entanto é a mais pura das verdades, as deusas são presenças marcantes, dentre elas, a Salamanca, a qual, apareceu altiva e exuberante. Uma festa! Almas em festa se agitam.

Retornando aos tropéis da lida planetária e circulando entre a multidão, um olhar se mostrou feliz, havia reconhecido a sua criatura, nos papiros de anteontem, seu almejado sonho estava vistoso e o ensejado desejo de arquiteta, se espelhava em sua proeza, ela, agora uma projetista, de algo antes desconhecido, sem face, estava aí, brilhante, transformada em cachoeira e banheira! Uma imagem ficou plantada no céu da emoção – igualzito a uma cantiga, cheia de meiguice e bordada de encantos, se faz enlace de estrelas apaixonadas.