A honradez não tem preço

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Na lida dura, mas honesta e decente, o peão estava um “bruto”. Enfrentava os malinos no cotidiano, assoviando poemas para sua amada. E ela? No alto da sua condição, jamais reparara na existência dele. Também pudera! Enquanto a recatada moça experimentava os maiores requintes que a vida pode oferecer para alguém, entre viagens aéreas, palácios, passeios para regiões pitorescas, debates com autoridades, deslumbrantes desfiles, decisões do tênis mundial, banquetes com magnatas, cruzeiros marítimos, lançamentos de coleções, estudos aprofundados visando a ocupação dos ocos do Sol, enquanto isso, a vida dele, condizia na aradura do solo e lançar sementes, domar corcéis e deixá-los dóceis.

Em seus sonhos, uma moça emponchada de beleza rondava as suas noites, naquela querência, no distante pago que se aproxima dos confins. Na dureza do seu labor, estava ele altivo, realizava os seus afazeres sorrindo, havia quem o chamasse de bobo alegre, expressões próprias daqueles idos (sabedor disso, nunca mencionou bulling). Herdara dos seus ancestrais, a humildade da linhagem, na expressão acentuada da palavra, porém, nobre na conduta. Essa foi uma lição e exigência avoenga, com quem convivera desde os dias mais tenros, pois, perdera seu pai, antes da primeira lua de vida, Capistrano, um valente e altivo defensor das suas plagas, das quais, nem ele, nem o seu pai e, por conseguinte, nenhuma nesguinha de terra legou ao filho órfão, pela qual tombou. Tudo alheio!

A honradez é uma qualidade que hás de carregar por andar e enquanto te for concedida dádiva da vida, dizia o avô, ao atento piá, enquanto os dois mateavam no crepúsculo das madrugadas eternas. O frio os assolava, é bem verdade, mas se fazia mais rigoroso ainda, no catre, do que no derredor dos tições que insistiam em expressar reminiscências. Os dois até que gostavam de sentar nos cepos, fixar o olhar nas labaredas, para as prosas matinais, naquele galpão barreado e santafessino, a história fazia trilhos na mente do guri. O avô-pai entendia que na falta do filho-pai, lhe incumbia a missão de doutrinar esse legatário. Moço feito, jamais se esqueceu dos ensinamentos.

Nos corredores da vida, o netinho se tornou um exemplo de cidadão, jamais se serviu do alheio e repreendia com veemência quem o fizesse. Seguiu par e passo as lides avoengas. Fez do trabalho, o seu ganha pão, se poucas as patacas, eram suas e com elas devia prover o seu sustento, contudo, em momento algum da vida desconheceu dos cuidados com o avô e disso tinha orgulho, a vida estabeleceu uma relação forte e perene.

Certo dia, cavalgando o horizonte, cruzando por um povoado, avistou a moça dos sonhos, entretanto, com a própria simplicidade, desviou o olhar. Numa tropelia, a sonhada se postou diante dele e o mundo desabou! A moça impressionada com robustez do campesino, feito sói acontecer em sonhos, docemente, pediu permissão para abraçá-lo, impressionada com a simplicidade e a sua rigidez, abandonou o mundo da suntuosidade, transportou-se aos mesmos confins, para saborear a doce essência da vida! O avô, com o inusitado, releu a vida afirmando para si: a honradez não tem preço!