A viagem

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Quando seu Tarquino foi embalsamado, vivia ele para os lados da Galileia, no meio de serpentinas de aguadas a descer dos morros no rumo de um grande rio. Enquanto ele estava provido de vigor, jamais fora visto pintando borboletas, andava sempre a arar, semear, cultivar e colher e assim sucessivamente. Era respeitado pela sobriedade, astúcia, labor e contentamento. Sim, contentamento! Trabalho para ele se constituía benesses. Triste? Nunca!

Certo dia, um viandante o interrogou, qual razão teria para enfrentar o rigor do Sol a lhe causticar? Tarquino sorriu de sobrancelha! Estendeu um olhar maroto ao peregrino e prosseguiu a sua labuta. Inconformado, o transeunte se voltou com ar de aborrecido e um olhar de tirano, mas Tarquino nem sequer deixou transparecer irritação e prosseguiu sua jornada que ele próprio considerava nobre. Algo divino! Fazer sementeira, paritariamente distribuir as lindas e preciosas sementes, irrigar broto a broto, cotidianamente até chegar a safra novamente, para, então, outra vez, rechear os celeiros abundantemente.

O tal Zé da Marca – o dito viandante – inquiriu Tarquino com toda a rispidez possível, por que estaria a ignorá-lo assim desprezível? Silencioso, o semeador se manteve no labor, contudo, sabia, necessitava estender uma palavra ao viandante sob pena de este incauto romper em fúria. Sentou-se esse ao relento, trocou olhares com aquele, pousou o olhar sobre o ombro do interrogador, que parecia estar perdendo a ira. Tarquino, com voz pausada, passou a desferir palavras suaves, dóceis e recheadas de experiência. O solitário caminhante parecia consolado… sentou-se, após solicitar licença.

Palavra vai, palavra vem, semeador e caminhante se fitaram em silêncio e num apertar de mãos, o último seguiu a andança enquanto o primeiro acompanhou-o com um olhar afetuoso, próprio daqueles que já colheram ensinamentos tantos a emprestar ao outro um pouco da sua luz. Ao longe, a poeira da curva da estrada obstaculizou ao semeador, continuar a ver-lhe a imagem. Porém, seus olhos guardaram aquele semblante agudo, que há pouco lhe fora hostil, e para demonstrar a sua candura, transformou-o em ouro.

Tarquino, no alto de sua bondade, continuou capinando lavouras do bem, ora estendendo um copo d’água, numa, sinalizando o caminho a ser percorrido, noutra, contribuiu com o seu silêncio, ainda em outras, servindo de amparo. Parecia agir sempre sob a esfinge do bem. Era talhado na equidade, professor em cidadania, um mensageiro da paz.

Certo dia, nas suas intermináveis caminhadas, Zé da Marca, retalhado de aventuras, retomou o caminho por onde encontrara Tarquino, na ânsia inconteste de beber da sua sabedoria, esqueceu a estrada, retornou, buscou informações, quis saber…, em dado momento, uma ave, em rasante voo, simbolizou um trilho. Zé, intrigado, seguiu os voos e entre os rochedos encontrou um informante, instou-o quanto ao destino de Tarquino. O habitante do rochedo, laconicamente, desferiu – ele empreendeu viagem!