A voz da rebeldia

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O berço nos faz destino! Ai os que cantam nas sombras do nada, ai os cantam no sol a pino, ai os que silenciam sempre, mas também ai os calam jamais. Essas verdades se traduzem nos semblantes e se espalham pelo universo. Nesse contexto podemos exaltar com orgulho essas diferenças, porque delas nascerão novas fragrâncias!

Água e vinho não se misturam, ainda que fossem misturáveis, haveria aqueles que os isolariam. O leitor e o “leitor” conhecem e sabem dessas máximas. E por mais ortodoxos, os vinhos de pipas distantes se condensam entre si, e por mais preciosa que seja a “água” ela será isolada! Contudo, quando a sede for, “irremediável e insaciável”, saciar-se-ão dessas águas.

Trago ao palco uma raiz campechana, forte feito um touro de rodeio, o qual, jamais teve enleio em seu cantar, fez o pago incendiar, levantou o peito e argüiu, nunca, nunca ruiu, e até quando por si só se exilou, seu silêncio foi perquirido, mandaletes lhe foram enviados, mas retovado, manteve a sua conduta, o cabra foi batuta, se mostrou entrincheirado, montou um crematório, onde queimou os ofertórios, legando-nos uma herança cheia de ensinamentos. Preferiu deixar esse mundo a vergar a espinha, uma lição bem dita, esquece-la, seria dobrar-se à covardia!

Pois Noel Guarany é uma dessas estampas, é uma voz que ninguém calará, ainda que o silêncio se ouça, seu eco se ouvirá, e seus ensinamentos estão em versos por ele cantarolados, de sua ou de outra lavra, feito: A Pátria é um fundamento / um grito no descampado / é um eco renovado / na garganta da querência / desafiando a prepotência / que quer ditar os valores / mas esses ditadores / não chamo de excelências. Segue: É um dever do payador / zelar ao bem da verdade / com a guitarra nos tentos / no rumo da eternidade. profetiza: “Não nasceu senhor no mundo / que compre minhas verdades”. Ainda, “Quando canto opinando / sempre falo as verdades / a quem estiver escutando / humilde para o peão de estância / e duro para um contestando.

A natureza lhe era bugra e resplandecia com fulgor, vejam: Se eu tenho um rio que murmura / e um rancho para viver / um caíque pescador / e um amor para querer / e o canto da passarada / pra alegrar o amanhecer. Sabia das diferenças sociais e sabia por igual, da diferença entre os iguais, e as cantava com entono, “ouçam” essa lição social: Me faço de chancho / no meio da sociedade. / Já não sofro mais com os outros / hoje entendo a humanidade / total, por ser guitarreiro / aprendi barbaridade. A força destes versos mandam recado: Às vezes duro de queixo / as vezes meio macio / às vezes com turbulência / às vezes calma de rio / destes que embalam estrelas / em claras noites de frio. Finalizando, trazemos ao bojo: Com licença meus senhores / vou terminando a payada / cantando sou perigoso / porque a verdade me agrada. Ele, Noel, era letrado pela vida!

Tombou com apenas 57 anos incompletos, pois nascera em 26 de dezembro de 1941 e sem se dobrar, partiu em 6 de outubro de 1998, cantando com telurismo a rudeza gáucha sulamericana. Os versos a seguir, fluem com a força de um corcel, donos dos pampas: Um payador que se preza / mesmo rodando não cai / recorre a vida cantando / aos pés do eterno pai / e depois volta de novo / canta para o povo e se vai!