Ela Passeava na Pandemia

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Comedida! Sempre fora a assim: discreta; altiva; modesta; vivaz; serena; vestida sem exageros. Uma performance regrada aos moldes das jovens de seu tempo, onde a discrição falava mais alto, as moças cursavam piano, na própria residência, com professores vindos de além-mar, dotados de conhecimento específico. Fala moderada, mas eloquente, seu conhecimento causava certa inveja nos círculos onde perfilava, contudo, nada fazia para se destacar, exceto, aculturar-se. Esse era seu perfil! Modesta até no caminhar, porém, carregava uma bagagem incrível de conhecimentos. Ouvi-la, aprazia.

Quando o universo foi aplacado por uma terrível pandemia, seu proceder foi imutável! Jamais agiu ao despropósito. Continuou a andar, sonhar, assenhorar-se de conhecimentos, ouvir muito, falar bem menos, aliás, lançou mão de adágio, proveniente de filósofos d’outrora, asseverando que Deus dotara o ser humano com dois ouvidos, mas tão somente uma língua. Rumava ao trabalho e desse ao seu lar, com ares da humildade, embora pudesse ser confundida com as integrantes da mais elevada realeza, alguns até referiam que pertencia a clã dos Tudor!

Aquela pandemia persistiu por meses, quase completou uma Lua e ela manteve a compostura digna, sem exageros, equilibrada, sóbria, coerente. Os ares de nobreza intrínsecos, componente físico que trouxera com o nascimento, jamais lhe modificou o proceder, quando alguma amiga mais próxima lhe perquiria dos porquês de não “fazer valer,” tamanha beleza física, visando alcançar degraus, sempre manteve uma compostura coerente, mencionando: quero galgar as montanhas através do domínio do conhecimento. Manteve-se ereta!

Em consequência do prolongamento da pandemia, quando a população perdia a calma, o que segundo especialistas da época, precisava ser compreendido porque quem estava acostumado a rodar pelo mundo, livremente, passar repentinamente ao confinamento, causara desequilíbrio emocional, sob todos os sentidos e aspectos, mas lá estava ela levando sugerindo o aplacar da tensão, mediante atividades sublimares. As suas atitudes, inegavelmente, auxiliaram as gentes, com o entretenimento que lançava sutilmente, nos escaninhos disponíveis.

A moça passeava com sutileza na mente de grande parcela da população, muitos beneficiários, jamais se deram conta da importância que ela representou, com a contribuição que distribuía graciosamente, no seu diminuto “armário,” zelosamente cuidado, limpo, arejado, todavia, repleto de conteúdos estrategicamente selecionados. Ela, em momento algum se omitiu, não aguardou a infestação ser destruída, pelo contrário, municiou seu acervo e colocou-o ao dispor da população.

Ela passeou no seio do povo, despercebida, ignorou reconhecimento, não esperou a pandemia passar, ao contrário, jogou elegantemente, mostrou suas virtudes, firmando ao mundo, como galgar degraus, sem necessitar de beleza externa. Passeou elegância.

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