Este chapéu foi abrigo de um caudilho

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Por volta de 1990, na campanha para o governo do Estado do Rio Grande do Sul, quando Alceu de Deus Colares se encontrava disputando o cargo de governador, aportava no aeroporto regional em Santo Ângelo o caudilho Leonel de Moura Brizola. Numa tarde ensolarada, com 40º centígrados. Viera, ele, de avião com o ar a preceito. No campo de pouso, não bastasse o calor escaldante, uma multidão angustiada lotava todos os espaços imagináveis, aumentado ainda mais a temperatura, embora isso, ninguém arredara pé! Todos queriam ver, abraçar e saudar o grande líder.

Distávamos aproximadamente cem metros da aeronave, sem a menor chance de furar o bloqueio humano, quando assistimos uma cena engraçada: Brizola de forma ágil tomou para si um boné, da cabeça de um dos presentes e meteu-o de imediato na própria cabeça. Compreensível, até diante da mudança brusca da temperatura amena da nave com aquela que ora enfrentava sobre o asfalto. Por certo, passados uns dez minutos, estávamos frente a frente.

Pois bem, minha melena já andava rala naqueles tempos e quando eu menos esperava, fiquei sem a minha proteção contra o Sol. Ocorre, Brizola, tal e qual, a rapidez de um raio, deixou-me a descoberta, tomando para si o chapéu em tela. Surpreendeu-me sua rapidez, ainda que setentão! Sorriu, ofereceu-me um abraço cordial. Silenciei, absolutamente! Numa hora dessas não há que se fomentar uma “peleja”. Ainda mais, ele era o ídolo, nós, o fã. Logo, por óbvio, fiquei radiante.

Seguimos viagem à Santa Rosa onde se realizaria um grande comício, quase frustrado, quando as lideranças da época, determinaram o corte da energia elétrica, no local da concentração. Partimos no carro de outro saudoso – João Costa de Oliveira, o Costinha! Passou ele a viagem toda zombando da minha sorte: perdeste teu chapéu. Já no largo da praça em Santa Rosa, voltou ele a rir-se da minha sina. Silente permaneci, mas o Costinha era hilário por natureza. Depois de muito tempo e pela relutância da multidão, de Colares e Brizola, alguém restabeleceu a energia, no local.

Até aquele momento, Leonel Brizola havia se limitado em chancelar autógrafos, milhares, por certo. Quando os microfones anunciaram-no, calmamente, senhor da situação, no palco, andava com o chapéu trocando de mão, e o Costinha tirou-me para bobo pela última, eis que, o grande caudilho, antes de saudar a massa humana, referiu assim manifestou: vocês podem pensar que este chapéu está me atrapalhando, mas não está não, eu quero saber onde se encontra o rapaz que me emprestou o chapéu para me proteger. Quero devolvê-lo! Desta feita, foi a minha vez de sorrir pro Costinha (ô Costinha! Que o Criador tenha você num bom lugar).

Quando ele – Brizola – alcançava o chapéu, solicitamos um autógrafo e ele prontamente fê-lo. D’outra feita, quando pela última vez o líder se candidatara ao cargo de presidente do País, estivemos em São Paulo e, propositadamente, levamos o chapéu, do meio da multidão lhe mostramos o mesmo, e ele levantou os dois punhos, havia-o reconhecido. Fiz chegar à ele, quando novamente, chancelou-o, outra vez. Esse adereço é fruto de conquista profissional, por atingir uma meta acima da estipulada pela casa do Gaúcho para os gaúchos, lá na Palmeira. Hoje, essa relíquia anda judiado pelas traças, os ácaros (bem que Paulo Davi me avisou: cuidado com eles), e desgastado pelo tempo. Agora preciso de ajuda, de alguém que saiba qual maneira de recuperá-lo e qual a melhor forma de preservá-lo. Ele já faz parte da história.