Estirpe

0
164

O sujeito era de uma linhagem considerada como de elevada estirpe. Soberano no andar, corpo ereto, cabeça erguida, sorriso de conquistar até defunto. Sobre o dorso do jegue então, recebia os mais elevados atributos e ele os fazia, por merecer. Um fidalgo, diziam. A vestimenta remontava aos nobres espanhóis de séculos passados – impecável -! Por onde passava, parava rodeio e uma plateia se fazia em instantes. Um militante de qualquer questão, pois sua fala era eloquente e retumbava contra o rochedo, fazendo eco nas distâncias. Donde viera, alguns indagavam?

No povoeiro, se fizera um Capitão Rodrigo! O riso fácil irradiava incrível contágio. Nas pulperias se fazia um falastrão e não poucas vezes, se envolvia em entreveros. No jeitão de folgazão, trazia uma vontade louca de topar paradas e topava mesmo, desimportava o deslinde do feito, por vezes, ferido e também feria. Ao recordar uma façanha, dizia para si, só a mão de Deus para me livrar daquela prateada que cortou a tarde, o vento e se embrenhou na noite, tamanha a gana com que o tipo soltou o braço. Depois desta, conto com uma vida a menos. E assinalava na tarca, uma a uma, restavam duas!

Nas delongas do paisano, seu manduca, havia dias estava de olho. Sabia, o tempo o fizera astuto, algo estranho ofuscava o dito, uma névoa, tinha certeza, cobria o passado desse, ao qual chamou aventureiro, já soltando a franga, sobre as mocinhas do pacato reduto. Até mesmo, sua pedra de amolar, alisara o fio da castradeira. Manduca, mais esperto que onça em butuca, reunira secretamente os velhos guardiões, confabulando sob cochichos, todos estavam atentos aos passos do paisano, cujo nome ninguém fora capaz de desvendar.

Senhores do tempo, evitaram o enfrentamento, lançaram armadilhas com aromas de benquerença, inundando as narinas do intruso com néctar inebriante. Negócios, conhecimentos, doutrinas, rodadas de mate, regado a fumo e pinga da melhor qualidade, feita ali no reduto. Essas artimanhas foram “adocicando” os desejos de domínio, contido no ímpeto do hospede do lugarejo. Os caciques dos fundões, exímios arquitetos, em emboscadas, com maestria em artimanha, qual esses senhores contemporâneos, fisgaram-no!

O paisano, com ares de soberba e do alto da sua vaidade, rodou da “picassa”, deixando o focinho na armadilha, sorrateiramente montada pelos zelosos vaqueanos, enquanto os moços desavisados, afoitamente, já se postavam ao lado do embusteiro, ao ponto de causardesconforto social, naquelas paragens, terras de “quase ninguém”. O solerte, com ares de vencedor, disse: transpusera a vastidão, guerreara a dura lida, saciara os sedentos, vencera os monarcas, estabelecera a verdade, instituíra justiça, fora um inigualável, desbundara a grã-finagem, construíra seu próprio altar.

O audacioso, fora quase um andarilho, vencera as distâncias, desvirginara os agrestes, fora vanguardeiro das vanguardas, estancara os ventos, suavizara as marés, rompera os portões irrompíveis, se tornara conhecido pelos feitos, arrulhando nos saleiros, profetizava muito além de Jesus, aliás, esse tal Jesus, jamais poderia se comparar a ele!
Essa estirpe… essa estirpe… essa estirpe…!